Sunday, 25 October 2009

Dedos internacionais

Sabem a posição em que ficamos com as mãos quando fingimos, por brincadeira, tirar o nariz a uma criança? A mão fechada, com o polegar a espreitar entre o indicador e o dedo-médio? Não sei porquê, deixo isso às vossas imaginações, mas é o equivalente japonês do nosso tão mal-amado pirete. Por outro lados, no por nós descoberto Brasil, o nosso gesto, de conotações italianas ou francesas, para perfeito ou muito bom, o indicador e o polegar juntos numa roda com os restantes dedos esticados para cima, é uma coisa que apenas se faz quando queremos mandar alguém à outra parte.
Festas internacionais têm destas coisas :)

Cabelos no Japão

Depois, ou talvez antes, da anteriormente referida questão dos beijinhos, a gentil Mexicana que a originou, de nome Maria, tocou, muito literalmente, na questão do cabelo. E, depois de muitos e variados toques, que foram desde mulheres e homens (lol eu), acidentais e asiaticos, cheguei a uma fatídica, triste e, de certo modo, desapontante conclusão. Não é segredo que acho o cabelo asiático completamente fantástico: cai suavemente pelas costas e ombros, como uma cascata negra e ininterrupta de suavidade inabalável. Ou pelo menos, assim parece. Na verdade é dos cabelos mais fortes, duros e resistente que já vi, tornando o seu toque muitíssimo pouco suave (sarasara, como dizem por aqui) e quase áspero, no pior dos casos. Suponho que, como em tantas outras coisas, seja o (desta vez inconsciente) sacrifício a fazer pelo que parece ~ triste entendimento, triste sensação...

Beijinhos no Japão

Hoje o dia acabou no quarto de um mexicano, cheio de gente de uma multitude de países incluindo, como não poderia deixar de ser, o Japão. Já não me lembro bem mas, a certa altura, a conversa vai de diferenças sociais, para diferenças pessoais gerais, para o toque. É que no Japão, ao contrario do Brasil, Portugal e México, as pessoas não se tocam at all. País e filhos só se abraçam quando são quando os segundos são pequenos, os comprimentos fazem-se à distancia, com uma muito sentida e impessoal vénia, os namorados não se tocam nem dão as mãos (em público pelo menos). Isso tudo discutido e comparado tornou o Japão dos países mais frios representados no dito quarto. É certo que eu também não sou muito de toque mas, até eu acho que por aqui é um exagero. O certo é que, a certa altura, a Mexicana mais "tocadora" da sala e uma das pessoas mais "tocadoras" que já conheci (scary shit too) disse a uma muitíssimo tímida japonesa, que estava a meu lado que era triste não haver beijinhos como comprimentos por aqui e que ela devia experimentar agora. E com isto disse para eu lhe dar dois beijinhos, os nossos beijinhos de Olá. Tudo muito normal e até acredito que ela o tenha feito com a melhor das intenções, visto que, no fim dos ditos, tenha dito "Not that bad, rigth?". Mas, o que é verdade é que a japonesa estava mais nervosa, tensa e, talvez, em choque do que alguém prestes a fazer bungee jumping pela primeira vez, embora nada tenha dito durante todo o período antes durante e depois do processo, apenas quebrando o silêncio para responder à pergunta feita com um muito ambíguo não-dito e japonês "hun." É pena. Teria sido revelador, embora tenha noção de que, se ela fosse pessoa para desenvolver a coisa, a revelação seria infinitamente menor.
Bem nos avisam de que há diferenças culturais e que essas podem ser estranhas, irritantes e perturbadoras e ao mesmo tempo surpreendentes, belas e oníricas, e que a sua descoberta faz parte da experiência de viver, conhecer e descobrir um outro país ~ deviam era também avisar os que nos recebem do mesmo :)

Ramen quente

Os japoneses adoram ramen que é, como muitos de vocês sabem, uma espécie de massa num caldo cujo conteúdo tem alguns elementos tradicionais e, por vezes, vegetais, carne, ovo, especiarias, maionese ou praticamente tudo o que se quiser como acompanhamento. Mas o ramen, para nós, meninos novos no Japão, tem um (dois) problema(s): primeiro tem de ser comido a sorver a massa, fazendo a máximo de barulho possível, o que é estranho e faz uma grande chafurdice à nossa volta mas até se aguenta; o segundo é que o ramen, tradicionalmente, come-se quente, muito muito muito quente. Tão quente que, a menos que sejamos japoneses e tenhamos a boca, esófago e estômago treinado, nos queimamos. Hoje disseram-me que o ramen deve ser comido quente para preservar o sabor e que o sorve-lo é uma maneira automática de lhe diminuir a temperatura. Talvez seja mas, cá por mim, ainda prefiro esperar um bocado: parece-me mais seguro.

Impostos, subsidios e ganhos

Dinheiro e economia são daquelas coisas que, hoje em dia, muito se fala, por isso, e também por uma agradável dose de curiosidade, tentei saber, com quem por aqui vive à algum tempo, como é que funciona e que valores de dinheiro há por aqui.
Começando pela saúde, de que ainda sei pouco, o preço de uma consulta é muitíssimo mais caro que em Portugal, visto a ajuda do governo ser muito menos, talvez por uma nefasta influencia Americana. Por exemplo, um parto custa aproximadamente provavelmente cinquenta mil iens, as o governo ajuda com trinta e cindo mil. Isto balanceia-se com a segurança social que, aparentemente, é bastante boa, à boa maneira japonesa. O exemplo que me foi dado foi o de uma mulher divorciada, sem capacidade para trabalhar e com três filhos menores que, por lei, recebe setenta mil iens por filho, num total de duzentos e dez mil iens, quase quatro vezes o ordenado mínimo. O dinheiro para fazer este tipo de coisa vem de impostos que são taxados mediante a necessidade dos bens, muito como no nosso pequeno rectângulo. Dessa maneira, tudo o que se compra é taxado em, pelo menos cinco por cento, com alguns bens considerados extraordinários - tabaco e álcool, por exemplo - a serem taxados com valores muito mais altos. Os salários também raramente são brutos, dependendo do que se ganha e para quem se trabalha à impostos que podem ir até, no máximo, a partir de dezoito mil iens ganhos por ano, até quarenta por cento. Também existem impostos por viveres na cidade, por usares as estradas e potencialidades que ela te oferece, e impostos pelo espaço que a tua casa ocupa que vão crescendo com o número de metros quadrados mediante a sua localização. Por fim, como em tantos outros sítios do mundo (todos?) há impostos de gasolina, que mesmo assim nunca chega aos nossos preços, mantendo-se a menos de um euro, gás, automóveis, etcetc :|
No entanto isso não quer dizer que seja caro viver no Japão, muito pelo contrario. Se não fez mais nada o euro diminuiu muito a diferença entre os dois países (por uma inflação ridícula e uma subida de preços abismal, mas isso é outra história). O ordenado mínimo no Japão é cento e setenta mil iens: três vezes o nosso e, no geral, se não contarmos com as frutas e carne, as coisas não são assim tão caras como a nossa mente colectiva nos diz. Por exemplo, um bento de sushi, de tamanho normal para uma refeição, comprado à hora certa não custa mais de tercentos iens, pouco mais de dois euros. E depois há os arubaitos, os part time jobs, onde facilmente se ganha, em menos de vinte horas de trabalho por semana, oitenta mil iens, mais de vez e meia o nosso ordenado mínimo. Isto quer dizer que, por exemplo, é muitissimo fácil comprar um carro em segunda mão com dois meses de salário, embora este seja, muitas vezes, supérfluo, graças ao fantástico sistema de transportes públicos que existe.
Como diz o outro, é mais fácil viver no Japão do que parece, o grande problema é mesmo a língua :)

Escolas japonêsas

Aparentemente o Japão, ao contrário de, penso eu, França, é como Portugal(?): as escolas publicas são melhores que as privadas e só vai para as privadas quem não se safa com o nível das publicas. Além disso, as despesas escolares, para ambas, são, em grande parte feitas pela própria escola. Os livros, por exemplo, são comprados por elas que, depois, os distribuem pelos alunos. Os almoços, embora haja cantinas, ficam, normalmente, a cargo da família, afinal este é o país dos bentos ;)

Other High School Festival


D1esta vez, convidados pela Rose-san, fomos ao festival na escola do seu filho. Infinitamente mais pequeno e com menos gente que o de Oosaka, tinha uma atmosfera de aldeia que se sente muito por Tenri. Houve exposições com trabalhosem madeira dos alunos; um, muitíssimo mau particularmente depois do último, concerto de koto e piano, que se safou pela sinergia entre os dois instrumentos; flores, frutas e comida à venda; cerimonia de chá tradicional feita pelos estudantes de lá; velhinhos e velhinhas japoneses e, contrastando, muitos uniformes reminiscentes dos mais variados animes. A escola era pequenina e estava quase toda interdida, o que não tornava os detalhes do jardim menos engraçados. No fim, sim, pois acabou muitissimo mais rápido do que seria de esperar pela amostra de Oosaka foi interessante e deu para ver que o Japão é mesmo um local de extremos, afinal, entre Oosaka e Tenri é apenas uma hora de comboio.


Saturday, 24 October 2009

Um restaurante indiano

No meio do Hondori de Tenri hán um restaurante indiano que, pela falta de pão, experimentei hoje. As doses eram, à boa maneira japonesa, pequenas. Só a comida necessária para a satisfação se acomodar no estômago, sem haver um estou cheio ou um estou com fome. Os molhos, carnes, pão e verduras tinha o sabor que deles se esperava e, em particular, os molhos e temperos estavam deliciosos. Mas o que tornou esta visita ao restaurante interessante foi o empregado, jovem no Japão à muitíssimo pouco que, depois de entender que o japonês não era a língua falada na nossa mesa começou agradavelmente a falar o típico inglês com sotaque indiano. Afinal, felizmente, se tirarmos os génios que andam a estudar a língua à anos e anos, o japonês é difícil para todos.

PS: Extra pontos para a TV, que esteve ininterruptamente a passar videoclips de música indiana XD

PPS: não há fotos por razões obvias ;_;

Kanji (七)  車

Há kanji que são muitíssimo fáceis de memorizar e entender. Este é um deles. Pensem numa carroça, daquelas antigas, de madeira, com rodas enormes, que só se vêem nas aldeias, vista de cima... não vos parece qualquer coisa como isto ?
O kanji é kuruma e, muito logicamente, pela evolução dos tempos, significa carro. :)

Kanji (六)  話

Falar. Uma das mais importantes actividades humanas e cujo kanji escrutino agora. é o dito, representando o hana de hanasu, a tradução japonesa do referido verbo. Este kanji é contituido por duas partes, à esquerda e à direita. A primeira parte () é o kanji do verbo comunicar que, por sua vez, é feito com o kanji de boca - - e traços slash palavras slash ideias a voarem por cima dele. A segunda parte () representa o kanji de língua e é constituído por um pau () no meio da boca (): a língua é, afinal, o objecto slash pau que divide a boca a meio. Muito logicamente, a comunicação que é feita com a língua é, como não poderia deixar de ser, a fala. ^_^

Carne e fruta

Em conversa com a professora Irene, que ensina português aqui por Tenri, aquando de uma passagem pela sala principal do departamento de português, não me lembro bem como, o assunto da comida surgiu e, como é óbvio, tive de tentar satisfazer a minha curiosidade com a questão da carne e da fruta por aqui. Eu não acho a comida por aqui muito cara, mas tanto a carne como a fruta estão num patamar diferente. São caríssimas: um bife pequeno, em promoção e com o prazo de validade a terminar daqui a algumas horas, chega a custar acima de dois euros e uma simples maçã, como penso que já aqui referi, chega facilmente aos três.
E porquê? Ora, pelo que entendi o Japão, em relação à comida (e não só...maybe) é um local de aparências. Isto quer dizer que a fruta tem de ser perfeita, com a forma certa, a cor certa e o sabor certo e que a carne segue o mesmo caminho, com a pouca gordura espalhada uniformemente pela mesma e com uma cor tão viva como se tivesse sido acabada de cortar. Para atingir isso, as, por exemplo, vacas do Japão têm a melhor vida que uma vaca pode ter, chegando a comer fruta fresca, a beber cerveja e a receberem massagens de modo a carne ser o mais molinha possível, tão molinha que até se pode comer crua, em sashimi de vaca que, pelo que dizem, é tão delicioso como caro. A fruta segue o mesmo tratamento, muita dela vai para sumos e molhos e condimentos pois não tem o formato ideal e a que passa a triagem é sujeita a tratamentos, e cito, "com gás para tirar o sabor amargo e as tornar mais doces". Dizem que, depois de provar a carne e fruta japonesa nunca mais de pode voltar atrás e comer o que há no resto do mundo e que isso é uma das razões para a carne brasileira ou australiana, que é muito mais barata, não singrar. Coisa estranha mas uma coisa é certa, pelo menos a fruta é (d)a melhor(es) que já comi, um dia destes, quando estiver disposto a perder a cabeça, tento a carne e digo qualquer coisa. :)

Friday, 23 October 2009

Festa internacional

O aniversário de uma menina da Costa Rica, duas indonésias que, por motivos religiosos, não podiam comer porco; uma chinesa que veio-e-foi, uma loirinha da Rússia, dois americanos que não fãs de música pesada, um canadiano e uma anfitriã do mesmo pais, uma tímida japonesa à mesa, uma não-tão-tímida japonesa na cozinha, com dois ajudantes japoneses a fazer takoyaki caseiro, mais uns quantos japoneses que nos deram a sua presença e, por fim, uma casa muitíssimo pequenininhha, uma manta no chão e uma mesa cheia de delicatessens.

Quem fez slash faz Erasmus sabe do que falo, o ambiente internacional e o dinamismo cultural é contagiante. Fala-se muito, aprende-se muito, partilha-se muitíssimo, vê-se e alarga-se o que já se viu ainda mais. Volta-se a casa tarde e a más horas: amanhã há aulas!

Por Tenri





Hoje, a caminho de uma festa que começava nos primeiros raios da noite, resolvi, de forma inconsciente, perder-me pelas ruas mais recônditas da cidade onde agora moro e redescobrir algumas das suas maravilhas. Árvores coloridas pelo Outono, telhados triangulares cinzentos e ruas tradicionais ao pôr do sol foram alguma das visões que me saltavam para os olhos por detrás de cada esquina.
Ficam algumas fotos da expedição que, como mensageira de um karma divino que não entendo, acabou em tragédia para minha (entre aspas lol) querida máquina que, tristemente, caiu e partiu o ecrã que é a única maneira de prever a foto a tirar ~ lá vou ter eu de fazer algo em relação a isso e parar, temporariamente, a minha relação com a fotografia -_-"



Arubaito

Há uns tempos recebi uma mensagem dos serviços internacionais a dizer que a escola de Nara estava à procura de alguém, cujo inglês fosse aceitavelmente bom, para ajudar nas aulas. Visto a ideia de dar aulas de inglês a pessoal mais novo me parecer interessante, resolvi dizer que ia à entrevista que foi neste mesmo dia. A entrevista correu bem. Foi maioritariamente conduzida por uma das professoras de inglês da escola, com o acompanhamento de uma outra professora e o, vim a saber depois, subdirector (!) do dito estabelecimento de ensino. Perguntaram o óbvio: o porquê de estar no Japão; qual a minha área de estudos; porque é que queria dar aulas; onde é que apreendi inglês; etc. Acho que era mais para ver o meu nível do que outra coisa ~ easy as pie! Depois dizerem que não podiam pagar muito ("muito" pela perspectiva japonesa :o) mas que dava para fazer uns trocos e que ainda tinha subsidio de deslocação. Sem problema nenhum: a experiência vale mais que o dinheiro. Finalmente disseram para responder, por escrito a alguma perguntas logísticas e, tão rápido e tranquilamente como tinha começado, despedimos-nos com algumas vénias e arigatous.
Passado alguns dias disto - tem vantagens isto de escrever atrazado ^_^ - mandaram-me um mail para o telemóvel a dizer para ir, juntamente com uma menina loirinha e de olhos azuis vinda da Ucrânia, conhecer o director da escola. Só depois é que me apercebi que isso era a maneira de eles dizerem que, a partir de agora vou (vamos, na verdade) dar aulitas de inglês todas as semanas. O dia, hora e detalhes ainda por descortinar, provavelmente sabe-los-ei no dito encontro com o chefe; mas uma coisa é certa: vai ser fantástico! :)


PS: arubaito é part-time job ;)

Lição V - Ranma 1/2

Angst é a palavra inglesa que, quando aplicada à camadas mais jovens reflecte toda a panóplia de sentimentos, revoltas, mudanças, lutas e revelações que a adolescência oferece. E não é por acaso que, numa boa parte dos animes, os heróis ou anti-heróis estejam a passar por essa mesma fase. Toda a gente a tem e, se o angst da personagem for reflectido no angst do espectador isso cria um laço entre os dois que, depois, é usado para cimentar o anime ~ afinal, fantasiar, com jogos, filmes, livros, sonhos, imaginações ou animes, é uma das melhores maneira de combater ou agir contra esse turbilhão interior.

Então, como é que o anime lida com essa transformação? Bem, em muitos casos tornando-a (metaforicamente) muitíssimo patente a nível físico e, depois disso, mostrar como é que a personagem que sofre essa transformação, lida com ela. Na aula vieram à baila três exemplos. Primeiro o Akira, com a sua transformação física e psicológica num ser superior ao que é humano, em particular no fim do filme com toda a visceralidade da metamorfose a passar diante dos nossos olhos. O Tetsuo, o anti-herói, lida com a sua transformação abraçando-a e desfrutando ao máximo dela... até se aperceber que a transformação o está a destruir e, num momento fantástico na psicologia da personagens, com isso, voltar à criança que era e pedir ajuda ao próprio amigo que tinha abandonado. Em terceiro lugar, perdoem-me a troca de ordem, temos o Shinji, na primeira vez que se fala a sério no melhor anime de sempre. Eu não gostei, o exemplo dado na aula não encaixa no anime e não encaixa na psicologia das personagens, como uma verdadeira "transformação". No máximo seria, como diz o Gendo, o início: contar com a transformação do Shinji em LCL, aquando da sua fusão com a mãe, não diz nada (quase nada) sobre a transformação psicológica da personagens e, muito menos, sobre a maneira que ele tem de lidar com ela ~ triste mesmo, nem numa eula sobre anime se dá o devido valor ao Evangelion. Por fim, em segundo lugar, temos a transformação muito mais leve, cómica e de teor sexual: o Ranma 1/2. Neste anime, talvez conhecido por vós, um rapaz (o Ranma lol) fica com corpo de rapariga ou rapaz mediante é molhado por água quente ou fria e, mediante as subsequentes transformações da série, ele lida com isso querendo sempre tentar reverter a mudança. Ao mesmo tempo, a sua escolhida noiva (sim, pois no Japão isso até era bastante normal) é a rapariga mais tomboy, e como tal, quem menos gosta de rapazes, da série, tornando a dicotomia entre os dois, num clima permanentemente cómico e artes marciais, engraçada de analisar como uma metáfora para essa aventura que é a adolescência, a descoberta do nosso (novo) corpo e a descoberta do outro sexo.
Enfim, uma aula engraçada mas em que fica um travo amargo: afinal como é que não se vê que a verdadeira transformação do Shinji está no filme, é ambígua e, mediante o final que se escolhe, altamente interpretável.



Avalanche de verbos

Lição quinze. Caos, confusão, loucura, dor e surrealismo. Hoje, em míseros trinta minutos foram dados os verbos akeru (abrir), shimeru (fexar), aruku (andar), hashiru (correr), tatsu (levantar slash ficar de pé), kakeru (sentar), tsukeru (ligar), kesu (desligar), noru (apanhar um veículo), oriru (sair de um veículo), norikaeru (trocar veículo), iu (comunicar), okureru (estar atrasado), hairu (entrar), deru (sair), suu (fumar), matsu (esperar), hanasu (falar), haku (calçar), nugu (descalçar). Vinte verbos, cada um com uma forma normal, a que aparece no dicionário, e uma forma respeitosa que se deve usar para falar normalmente.
É tudo? Claro que não! Além dessas duas formas verbais, foi também hoje ensinado a forma て (te), em que se transforma o final do verbo, mediante regras estranhas e sem sentido, consoante o tipo de verbo e a sua terminação. A formaて, essa, é usada numa quantidade enorme de frases e situações, a mais simples - apreendida também, pasmai! hoje - é para fazer pedidos. Verbo-na-formaて + kudasai = Por favor, pode ~verbo~.

Exemplo simples, com um verbo simples: matsu (esperar):

ここ で まって ください。
Koko de matte kudasai.
Aqui espere por favor. (literalmente)

Se repararem matsu e matte não são a mesma palavra, há uma conjugação verbal envolvida. Suponho que, no fim, a ideia da aula seja que saibamos a dita conjugação para todos os verbos novos que acabamos de apreender e para todos os que já sabíamos antes :s

とてもむずかしい。。。;_;

Thursday, 22 October 2009

Claymore

Prevendo que, daqui a umas semanas valentes, terei uma aula sobre este anime, comecei a ler a manga, quando, numa crise de procrastinação, fome, cansaço e preguiça, não me apetecia fazer nada de mais produtivo. Escusado será dizer que, a manga, embora não sendo tão fantástica como dizem, é muitíssimo boa. Espero ansiosamente pela dita aula que me cheira (não surpreendentemente) ser interessante, a ver pelo padrão que elas tomaram.
A imagem retrata o meu jantar de hoje: ramen instantâneo feitos em menos de três minutos e uns cinco volumes da dita manga ~ atama ga itai

Maçãs

A fruta no Japão é, além de caríssima, estranha. Aqui vai um exemplo da coisa: ambas são maçãs, ambas de compram no supermercado e, acho eu, ambas são de origem japonesa. A maior é das coisas mais doces, suculentas e saborosas que se pode comer por aqui. A mais pequena também sabia muitíssimo bem e fazia lembrar os melhores exemplares de maçã ranheta (EDIT:okok ~ é raineta! bolas é chato quando tamos vinte e quatro anos enganados pelos nossos ouvidos :|) que se encontram por Portugal.

Momiji

E, sem que quase ninguém dê por isso, o momiji (mudança das cores das árvores provocada pelo Outono... or so they say) avança pelo Japão. A cidade de Tenri, como demonstra a foto, não é excepção. É impressionante a quantidade de cores que a natureza ordenada e moldada da cidade oferece a todos os que a querem ver.
:D

Caderno

É certo que eu sou conhecido (lol) por escrever um bocadinho mais que o resto do pessoal, mas isto é um exagero. O meu (primeiro) caderno das aulas da manhã acabou hoje, pouco mais de mês e meio de começarem as aulas ~ uff
Taihen desu ne...

Wednesday, 21 October 2009

Kanji (五)  安

O kanji de hoje é um dos meus favoritos pois, no seu significado mais fácil, penetra profundamente na visão que o Japão tem slash tinha das mulheres. O kanji é , o yasu de yasui, que quer dizer barato. Este kanji é composto por e . O primeiro é, sem tirar nem pôr o kanji para mulher e, o segundo é um pictograma de um telhado. Se, vendo isso, analisarmos como estes dois elementos estão dispostos, facilmente se vê uma mulher dentro de uma casa.
Daqui, a piada corrente e fácil de fazer é que as mulheres, que estão em casa a fazer o que tradicionalmente lhes é destinado, são baratas, como quem diz baixas ou pouco desenvolvidas. Na verdade, é exactamente (?) o contrário: duvido que os antigos chineses ou japoneses gostassem de expor os seus podres tão abertamente, mesmo sem os entenderem. A verdade é que o kanji, mostrando a mulher em casa, onde está protegida (ou a descansar, ou presa...) representa uma paz ou um descanso, por sabermos que ela está bem: a mesma paz, ou falta de dificuldade, que temos em comprar algo barato.
Não tão machista quanto poderia ser não é?

História IV: Yamatai

Durante o fim do período Yayoi, à uns mil e novecentos anos atrás, o imperador chinês mandou enviados ao reino de Yamatai, que ficava localizado na ilha de Wa que, hoje em dia, se chama Japão. Lá, tais enviados, fizeram alguns apontamentos sobre esse povo diferente e até trocaram alguns presentes para, pensasse, promover a diplomacia entre os dois países. O problema disto é que, mesmo tendo uma importância pivô para analisar e descortinar o verdadeiro inicio da cultura japonesa, ninguém sabe onde é que Yamatai. Por outro lado sabe-se que, ou pelo menos assim escreveram os ditos chineses, esse reino era controlado chefiado ou dominado por uma mulher - Himiko - que, aparentemente era casada com um Deus e tinha poderes de mágicos(!).
A questão e uma questão que, até hoje, ninguém consegue, com cem por cento de certezas responder é: quem foi Himiko e como é que ela se liga, se é que se liga, com a eterna e descendente dos deuses, família imperial, a maior dinastia slash linhagem do mundo. Há várias opções. Ela podia ser apenas uma impostora, que enganou os enviados chineses; podia ser uma responsável pela zona a mando do imperador; podia ser mulher de alguém importante; etcetc. Como é claro, a esperança de todos os que buscam a identidade dessa mulher é que, a dita, os leve a uma conclusão sobre o reino que ela tinha (?) e, subsequentemente, ao inicio arqueológico e desprovido de mitos da cultura japonesa. Alas, ideias, correlações e causalidades mais ou menos engraçadas apontam para que ela pudesse ser a tia-avó do décimo imperador Sujin, cujo nome era Yamato-toto-hi-momo-so-hime no Mikoto, pois a descrição de ela ser, de algum modo, uma feiticeira encaixa. Por outro lado, onde está o seu túmulo e, será que ele nos daria uma ideia de onde foi Yamatai? Finalmente, quanto é que se pode confiar nas descrições chinesas quando as mesmas misturam história com mito com uma facilidade tal?
Seja como for, o que se sabe é que, as primeiras descrições históricas conhecidas do Japão vêem desses chineses - a compilação tornou-se no livro Nihon Shoki - e que temos de a usar da melhor maneira. Para ver uma ideia de como é o livro, passo um dos textos lidos na aula. Altamente recomendado, particularmente porque dá para ver o sentido de humor do professor ^^,


* * *


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Alice* and the Chopstick

(Adapted from the Nihon shoki chapter for Sujin, entry for the 10th year 7th month 27th day. Based on Aston’s translation. The main figure in this story is identified in the chapter as the great-aunt of Sujin, the 10th monarch in the official genealogy of the imperial line.)

After this, Alice became the wife of Ōmono-nushi no Kami [the deity worshipped at Mt. Miwa, a sacred site in the southeast corner of the Nara basin]. This deity, however, was never seen in the daytime, but came at night. Alice said to her husband: "As I never see my Lord in daytime, I am unable to view his divine countenance clearly. I therefore beg him to delay a while, so that in the morning I may look upon his majestic beauty." The great deity answered: "Of course what you say is right. Tomorrow morning I will enter your cosmetics case and stay there. But I pray, do not be alarmed at my form."
Curious indeed, thought Alice. Waiting until daybreak, she looked into her cosmetics case – and there was a beautiful little snake, of the length and thickness of the cord of a garment. This frightened Alice, and she uttered a cry. Thereupon the great deity was ashamed, and suddenly changing into human form, said to his wife: "You did not contain yourself, but put me to shame: I will now put you to shame in turn." Rising into the sky, he returned to Mt. Miwa [given as "Mimoro," an alternate name]. At this, Alice looked up and was overcome with grief. Slumping suddenly, she pierced her genitals with a chopstick and died....Therefore the men of that time called her tomb Hashihaka [chopstick grave].
This tomb was made by men in the daytime, and by gods at night. It was built of stones carried from Mount Ōsaka; people standing close to each other passed the stones from hand to hand, thus transporting them from the mountain to the tomb.


*A pseudonym. Her real name, Yamato-toto-hi-momo-so-hime no Mikoto, is so long as to
render smooth reading difficult.

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Contagens

Claramente uma das bizarrices mais fortes da língua japonesa são as contagens. A língua tem regras para diferentes coisas serem contadas com palavras diferentes mediante a forma ou a natureza do objecto slash coisa a contar. Desse modo temos: a) os papeis, e as coisas que, como ele, são muito finas mas grandes, com mai; as máquinas, como carros, frigoríficos e televisões, com dai; os livros com satsu; a frequência e número de vezes com kai; as coisas grandes e cilíndricas, como chapéus de chuva, cenouras e pepinos, com hon; os objectos ou coisas mais normais - cadeiras, maçãs ou escovas - com tsu; sapatos e calçados com soku; as coisas pequenas, como chaves, pins ou straps do telemovel, com ko; liquidos com hai; animais com hiki e pessoas com nin.
E, além disto, como é muito normal, para cada uma destas contagens há excepções à regra e letras que mudam e maneiras de dizer que são estranhas ~ só porque sim. ~ aiai ~

Atsui

Como devem saber, atsui quer dizer quente. Mas quente em relação a quê? Comida, temperatura, toque? Na verdade pode querer dizer isso tudo: atsui usa-se para comida quente, um verão quente e para uma pessoa carinhosa (quente). Além disso, como se esta associação, até bastante normal, não bastasse, também quer dizer grosso, quando estamos a falar de espessura.
E o porque disto tudo? Como diria a minha sensei: sore wa nihongo... (isso é japonês...)

Keiyoushi

Lição treze. Pouco mais de um mês de começar as aulas, são-nos finalmente apresentados os adjectivos japoneses. Alguns dos vinte e três premiados foram o samui (frio), atsui (quente), oishii (delicioso), omoshiroi (interessante) e o famoso, pela sua aparência lengalengiana, atatakai (melhor traduzido para temperatura quente agradável).
Agora, o que é mesmo giro (ou não!) nestes meninos é que flectem, (mais ou menos) como os nossos verbos flectem. Dito isto, em japonês, a flexão dá-se para fazer a negativa, o passado e o passado negativo e isso Isto é, em vez de colocar o dito i final mete-se um ~kunai, ~katta ou ~kunakatta, respectivamente. E isto é muitíssimo fácil de entender. Mas, como diz tantas vezes a minha sensei, "atama to kuchi ga onaji de ha arimasen" (a cabeça e a boca são diferentes), para nos dizer e reconfigurar, como uma motivação para fazermos os exercícios, que entender a coisa e falar a coisa é totalmente diferente. :s

PS: tentem lá colocar o atatakai na forma do passado negativo? Já entendem o porquê da sua natureza trauteante?

Boca ai, orelhas aqui

Sabem, quando, de repente e sem estarem à espera se queimam no dedo? Se bem me lembro, em terras lusitanas, o normal é, num movimento fluido e único abanar o dedo e, sem pensar no assunto, coloca-lo na boca na esperança inconsciente de que a saliva (?) melhore a pequena queimadura. Eu pensava que tal comportamento era mais biológico do que outra coisa, mas estar aqui, numa sociedade tão diferente provou-me o contrário. Os japoneses, aquando da mesma situação, reagem - no verdadeiro sentido da palavra reacção - de maneira diferente: metem o dedo no lóbulo da orelha, parte do corpo que, pelo seu destacamento da massa corporal costuma estar mais fria do que o normal.
É muitíssimo engraçado pensar que, algo tão reactivo e pouco pensado seja uma influência social que fomos ganhado e não uma memória muscular passada, de forma mal entendida, pela genética.

:)

Tuesday, 20 October 2009

Kobe Omatsuri

Isto vem um bocadinho atrasado pois este vídeo que tanto me fascinou filmar estava em máquina alheia. De qualquer maneira, com um mês e duas semanas de atraso, aqui está o completamente WTF Omatsuri de Kobe no porto desta cidade :)



PS: aqui está um zip com os meus dois primeiros omatsuris: tenri e kobe :)

PPS: tentem ter isso como música de fundo ~ é assustadoramente contagiante ^~^

Kanji (四)  買

O kanji que hoje perguntei a minha sensei e que, com a ajuda do dicionário electrónico, lá consegui descobrir o significado. é o ka de kau (買う), que significa comprar.

Se repararem bem o kanji tem duas partes: a parte de baixo que será e uma parte de cima que parecem ser três quadrados juntos dispostos na horizontal. A parte de baixo representa um marisco, mais precisamente e concha do marisco. Marisco esse que, sendo o Japão uma ilha, era usado, em tempos idos muito antes da escrita, pelos japoneses da altura como dinheiro ou, pelo menos como algo que representava trocas mais ou menos monetárias. Sendo assim, o significado foi estendido para representar as coisas que se podem comprar.
E os três quadrados em cima? Com um bocadinho de imaginação conseguem ver que representam a estilização de uma rede de pesca, afinal, comprar é apanhar as coisas que se quer ter, tal como um pescador que apanhar os ditos mariscos :)

Kanji (三)  明

Hoje as aulas da manhã fizeram-me lembrar deste significado: o exemplo clássico das abstracção dos kanji. É ele , o aka que se usa na palavra akarui (明るい), cujo significado é claro, como oposto de escuro. Ora, sabendo os kanji de sol - - e lua - - facilmente podemos ver que, com um bocadinho de foco na explicação e sendo o sol brilhante e a lua brilhante sendo, a combinação é brilho.

+ =

No entanto, verdade é que, antes se usava , o kanji antigamente usado para janela, cuja forma lembra um buraco numa casa, com o kanji de lua (). Ou seja o que era claro, ou o que fazia claridade era a luz da lua a entrar pela janela.

omoshiroi desu ne ~

Tipos de sangue

Pode não ser conhecimento comum mas por aqui os tipos de sangue são tão importantes como, por exemplo, os signos para ver quão bem é que duas pessoas se dão, em particular, amorosamente. Pelo que me foi explicado os B's são os que falam muito e tem uma dinâmica superior, são mais centrados em si mesmos, vão sempre em frente e têm vistas curtas algo que, obviamente, me faz lembrar os carneiros. Os A's são auteros e rigorosos, gostam de organização e de ter controlo sobre tudo o que eles e os outros fazem, ou seja, são as virgens lá do sítio. O's por suas vez são gentis e de coração aberto, espertos e pouco rígidos, talvez os (lol) balanças, mas pareceu-me muito biased. Por fim, os AB são, como seria de esperar, os gémeos, um tipo que é especial, imprevisível e cuja personalidade fácil vai de um extremo ao outro.
Funny thing e já agora aproveito para perguntar aos meus respeitáveis progenitores: qual é que é o meu tipo de sangue mesmo? :D

A idade nunca foi o que é

Como é sabido, na sociedade japonesa, há não tantos anos atrás a pressão para casar quanto antes, com a temida idade de vinte e cinco como limite socialmente aceite, era muitíssimo grande. Sabendo isto, os pais mais astutos, de modo a dar mais tempo às filhas, não fosse o diabo ou a má sorte, pois aqui não há bem o conceito de diabo, costumavam registar as filhas uns meses e, as vezes, até um ano depois do seu nascimento. Tal foi o que aconteceu à venerável senhora cuja nora é a Rose-san.
Como seria de esperar, o seu humano tem sempre maneiras de combater e dar a volta aos sistemas que, de uma maneira ou de outra, o prendem a esta regra ou aquela obrigação ^_^

Yakuza

Photo from Gideon Mendel/Corbis.

Uma das conversas que tive de ter com o marido da Rose-san foram os yakuza. A máfia japonesa é conhecida como uma das maiores e mais poderosas forças criminosas do mundo. De estrutura hierárquica e uma mentalidade que facilmente relembra os estóicos samurais de outrora são um mistério para todos os que fora dela se encontram. Este senhor, obviamente fora dessa organização, também não sabia muito mas, mesmo assim, lá conseguiu dar de comer à minha curiosidade.
Em primeiro lugar o mito do corte do dedo mindinho e das tatuagens é mesmo verdade. O corte do dedo, que torna os yakuzas particularmente reconhecíveis, o que, na sociedade japonesa, não é desejável, particularmente se fizermos parte de uma associação criminosa, é muitas vezes minuciosamente mascarado com próteses muitíssimo realistas unidas com um discreto anel e as ditas tatuagens são feitas por profissionais que de tão bons e prestigiosos que são, escolhem se a pessoa a que vão presentear o seu trabalho merece que assim o façam.
Depois, pelo que se sabe os yakuzas tem quatro grandes tipos de foco. Em primeiro lugar, o jogo organizado, coisa que, embora seja muitíssimo normal no Japão da máquinas electrónicas e solt-machines, deve ter apostas muito mais altas e dúbias quando um yakuza está por detrás da coisa. Segue-se a prostituição, cujo assunto eu em breve falarei, mas que, segundo a lei é ilegal e que, existindo tem os seus laços mais profundos com estas organizações. Finalmente, a última e mais perigosa actividade que estes grupos têm é a compra ou takeover empresarial, pelo que entendi um associado sobe ao quadros superiores da empresa e depois faz, provocando uma falência ou através de negócios obscuros que essa mesma empresa fique, directa ou indirectamente, a pertencer aos yakuza (e sim, eu sei que não deve ser bem assim, mas para algo mais credivel há sempre a Wikipédia). Estas pessoas, em particular, pelo que se diz são altamente inteligentes, bem-parecidas, educadas e em nada parecem criminosos.
No fim, parece que os mistérios dos yakuza permanecem, e provavelmente permaneceram, um mistério mesmo, afinal são das poucas organizações criminosas que, em tempo de crise, ajudam de forma pró-activa e organizada as pessoas, como aconteceu no gigantesco terramoto de Kobe em, se não me engano, mil novecentos e noventa e cinco. ~ sei que é impossivel, mas gostava mesmo de conhecer um enquanto estou por aqui XD

Uma casa japonesa

Se bem se lembram, há uns dias foi a um absolutamente fantástico concerto de koto na companhia da há pouco tempo conhecida Rose-san. Hoje, como foi combinado nessa soberba noite fui, juntamente com uma conterrânea e uma brasileira, cozinhar para a família dessa simpática senhora e, ao mesmo tempo, provar um prato das filipinas, a sua terra natal. Chegando à casa dela com o sol a pôr-se, depois ter passado por uma paisagem que não estaria desajustada pelas montanhas de Portugal e depois de termos um acidente com uma bola que veio em direcção ao carro depois de ter saído da mão de uma criança descuidada que, ao se aperceber de tal vicissitude, fugiu rapidamente para o bosque atrás do parque aonde brincava, chegamos à casa aonde o serão (e, para deleite de algumas pessoas, pequenos cães) nos aguardava.
Ao entrar em casa em que, como seria de esperar, sapatos não entram, a família dela recebeu-nos com toda a simpatia. O marido era um japonês nos seus quarenta ou cinquenta anos que, tão diferente do que vemos nos comboios mostrava um espírito não stressado, calmo e até divertido. A sogra, uma mulher muitíssimo idosa e com uma presença surpreendente, com, foi-nos dito, cem anos fez uma breve aparência para, suponho eu, ver o que era o comoção. Os filhos, que foram chegando, mostraram a surpresa própria de crianças adolescentes e os gostos também: ambos eram avidos leitores da shonen jump ^_^ A casa, essa era tudo o que esperaríamos de uma casa japonêsa, além da normalidade e sentimento de proximidade que a arrumação de tudo dava, havia portas de madeira que deslizavam, tatamis no chão, (algumas) paredes de papel branco e até o que seria melhor descrito como um mini templo numa das divisões.


Quê? Isso não é normal nas csas japonêsas! No máximo dos máximos há um altar ~.~ Verdade, verdade. Mas, como viemos a saber, esta casa servia de mini-igreja da religião vigente - Tenrikyou - e, como tal, tinha o espaço religioso devidamente preparado. Três mini-altares, a poesia das músicas nas paredes, as decorações em papel, os tatamis e os instrumentos tornavam aquela sala uma preciosidade numa casa que só por si já é cheia de coisas incomuns par aos meus olhos não habituados. E não pensem que tal divisão era só fogo de vista ~ pouco depois de chegarmos, ainda no inicio da preparação do jantar, tivemos o privilégio de ver umas das cenas mais surrealistas de que tenho memória. Rose-san, juntamente com o marido e os dois filhos vestiram as suas vestes cerimoniais e, de forma tão natural que contado teria tido dificuldades em acreditar, executaram o a vontade e a minúcia de quem o faz muitas vezes, a sua reza diária e, sendo a Tenrikyou, não surpreendentemente, esta foi composta por música, tocada, em instrumentos tradicionais, pelos homens, cantada (talvez seja melhor dizer entoada?) pelo pai e, dançada, da forma que só os Tenrikyou-anos conseguem, fazer pela mãe. A beleza, hipnotismo e atmosfera do local, som, situação took me to places.


* * *


Depois da bela cerimónia slash reza slash performance slash ritual dedicamos os nossos esforços ao jantar. O arroz de polvo é fácil de fazer e, com a ajuda (ou talvez deva dizer "a ajudar" :) das exímias cozinheiras que tinha a meu lado, nada correu mal. Os nossos anfitriões, em particular, o filho mais novo, gostaram do dito arroz e a sopa de cogumelos estranhos com frango e legumes com um travo delicioso a limão estava mais do que boa. Para não variar comi de mais outra vez :s
Foi particularmente engraçado e interessante ver que o marido tratou do polvo com pauzinhos e que, mesmo com o arroz muito mais separado que o arroz japonês, ele conseguia apanhar os bagos sem grande dificuldade ~ it takes a lifetime!

Depois do jantar ou, melhor dizendo, prolongando-se depois do jantar, de uma forma que nada tem haver com o Japão que até ai conhecia - como é grande a diferença entre o público e o privado aqui! - a conversa sobre tudo e nada, diferenças culturais, países distantes (como os nossos) e países estranhos (como este), personalidades, arte, anime, gostos e tudo o mais chegou a hora, impulsionada por um teste num dos dias que seguiam, da despedida.
Numa palavra: absolutamente fantástico.

お世話になりました!!!