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Wednesday, 21 July 2010

O tempo e o teste

Não é que eu tenha morrido ~ longe disso! Mas a situação por aqui, com as mudanças e as despedidas e os exames e as viagens e as coisas não me deixam dedicar tanto tempo quanto quereria/deveria a este espaço. Alas, hoje faz-se uma espécie de ponto da situação.

Por aqui, acabou de acabar a época das chuvas. A horrivelmente molhada, sufocante inibitória época das chuvas. Nas piores alturas, sair de casa significava dar um mergulho numa atmosfera com noventa e nove por cento de humidade que de mão dada ia com um calor sufocante. É engraçado ver como o suor de dentro e a chuva de fora se podem confundir de forma tão perfeita. E claro, foi giro estar no meio de tempestades tropicais em que a chuva molha mas não esfria ^_^
Agora, o Verão japonês planeia avançar dolorosamente, ainda nem estamos em Agosto mas já o céu azul ameaça temperaturas que não ficam atrás dos piores momentos de Portugal ... sem esquecer que, por aqui, não há uma abundância de praias.

* * *

Hoje foi o exame final de kanji e de leitura. Eu deixo a analise do de kanji para outras alturas em que a memória esteja menos danificada e passo para a surpresa do dia e, afinal, a razão deste post. O exame de leitura é, no fundo, ler um texto e mostrar que o entendemos respondendo a algumas perguntas. Não surpreendentemente entender o texto é muito mais fácil que responder às perguntas mas, em geral, não é nada que não se faça com mais ou menos dificuldade. Os textos, tanto os do exame de hoje como os dos exercicios passados, tem como tópicos, em geral, partes ou histórias ou curiosidades da cultura japonesa.
O exame de hoje vinha em duas partes. O primeiro texto falava sobre um reencontro entre dois amigos, mais de quarenta anos depois, e de como a amizade dos dois se baseava (e, depois do encontro, se continua a basear) no facto de ambos gostarem de ... pescar. Isto pode parecer estranho, em particular com todas as idiossincrasias que o texto explicitava mas, por estes lados orientais, não é algo que eu não veja acontecer de forma mais ou menos normal. Já se sabia que os orientais em geral e os japoneses em particular tem uma maneira muito particular, i.e. fundamentalmente diferente, de ver as relações humanas e os sentimentos de que delas advém mas nada disso me podia preparar para o segundo texto, repito, do exame final.
Este texto falava, de forma muitíssimo detalhada sobre a infância de uma criança que perde o pai com uns sete ou oito anos. O testo começava com a frase "quando estava no primeiro ano da escola, o meu pai morreu " e continuava a explicar a vida que o pai levava - workaholic, nunca em casa, a viajar para o estrangeiro, ausente e sempre ocupado - como ele morreu - quando estava a beber sake com os clientes e caio para o lado depois de fazer uma cara de dor - como ele (a criança) foi acordado pelo telefone numa noite fria de Fevereiro e como a mãe o levou ao hospital onde o pai, que já nada falava, estava; como a mãe dele, durante muito tempo depois, chorava fortemente; como a vida de casa mudou com a necessidade da mãe arranjar um trabalho e a solidão e tristeza sentida - aqui detalhes mórbidos como o facto dele fechar a porta de casa depois da mãe sair ou o facto dele esperar por ela depois da escola sozinho coma sua dor - e, por fim, como ele, repito, uma criança de sete ou oito anos, se sentia triste e em lágrimas cada vez que via crianças da mesma idade a saírem de casa com os pais para irem a qualquer lado e como ele não tinha a coragem para pedir o mesmo à mãe vendo quão cansada ela sempre estava a trabalhar sete dias por semana. E sim, isto tudo num exame final, mesmo sem saber que tipo de famílias, relações e traumas tem os alunos que tem de, obrigatoriamente, fazer o teste. Agora, corrijam-me se eu estiver enganado: em Portugal e provavelmente no resto da Europa (não sei quanto às Américas) isto nunca acontecia pois não?
No fim do exame, chocado, fui perguntar ao professor porque é que o texto era tão triste e ele responde-me, com uma cara de incredibilidade, "não é nada triste, é normal". Eu ainda não sei bem o que é, mas de uma coisa eu tenho a certeza absoluta: os japoneses não têm, vêem, sentem e pensam as relações e emoções como nós, povos não asiáticos, o fazemos.

Sunday, 25 April 2010

Ouvir

Hoje, além de outras coisas que me fizeram doer a cabeça, estive de volta de um mp3 com pouco mais de treze minutos que continha o som de uma serie japonesa. A ideia era preencher uma folha, frente e verso, com as falas que entendemos, ou não, do dito ficheiro. Só duas horas depois é que cheguei ao fim da folha, com a certeza de que tenho bem mais de metade das falas erradas. O japonês falado é totalmente diferente do japonês que se aprende na segurança da escolinha ~ aiai ~

Monday, 22 February 2010

Kanji (八)  早

[29/10/2009-23:31]

O significado desde kanji é difícil de saber e fácil de inventar. Ele significa rápido (), mas só pode ser usado quando o rápido tem haver com tempo e não velocidade. Eu pensava que o kanji era um sol () a erguer-se de manhã, algo que, é sempre mais rápido do que parece. Afinal, a representação antiga do kanji era uma espécie de nós a ser fervida para obter uma tinta escura. O tempo fez com que esse escuro simboliza-se a noite antes da alvorada, depois, a manhã cedo e, finalmente, o pouco tempo que demora até ela chegar. Perto da minha interpretação, mas muito mais interessante.

Wednesday, 28 October 2009

Classificação dos Verbos

Este post é especificamente feito para todos aqueles que, de uma maneira ou outra, por uma panca ou outra, estão a tentar apreender japonês. E, não surpreendentemente, fala de verbos, o pesadelo de qualquer nova língua, embora, em japonês, não seja o maior pesadelo que existe. **coffcooff*kanji*coff*keigo*coffcoff** Normalmente, em aulas passadas disseram-me que havia três tipos de verbos e mais uma quantidade incrível de más estruturas para os ensinar. Aqui, ao contrário de alguns livro, vai a minha maneira de ver as coisas, com toques da minha, as vezes referida como estranha, mentalidade, e com as ideias de japoneses, incluindo professores, que encontrei por aqui.

No japão, uma das classificações que se pode fazer dos verbos, é em _dois_ grupos distintos: ichidan e godan, ou seja, verbos de um (ichi) nível (dan) e verbos de cinco (go) níveis (dan). E, para já, assumamos que apenas os godan importam, visto que os ichidan são apenas uma simplificação slash caso particular desses. Ora, como em muitas línguas, estes godan são conjugados mediante a seu término e, em boa verdade, é muitíssimo mais complicado tentar entender as suas conjugações sem olhar para os hiraganas - as mais simples letras japoneseas que, por serem, como as nossas e, ao contrario dos kanji, totalmente baseadas em som - cuja aprendizagem é "apenas" uma dolorosa, frustrante e irritante questão de memória e diligencia. Agora, tendo em conta essas letras facilmente se entende quais as regras para formular as diferentes formas verbais. Claro sabe-las inconscientemente é outra história, mas quem não se lembra se de ter dúvidas se o passado de "eat" é "ate" ou "eated"? Exactamente o mesmo problema :) A partir daqui é saber quais verbos são godan (5D) e quais sao ichidan (1D). E, felizmente há regras: a) todos os verbos são, à partida, 5D; b) só verbos terminados em る(ru) podem ser 1D. E, infelizmente, depois de saber isso é tudo uma questão de memória e treino. Mas não é assim tão mau, sabemos que, de certeza os verbos terminados em う(u), く(ku), す(su), つ(tsu), ぬ(nu), ふ(fu), む(mu) e etc. são 5D e que as regras especificas aos 5D a eles se aplicam. Alias, aos seus nomes reflectem isso: os 1D só têm uma terminação né? (na verdade não é bem assim ~ mas mais sobre isso depois :)
É claro que, nem tudo são rosas, há verbos que são excepções: o verbo 来る(kuru: vir) e o する(suru: fazer) tem tratamentos especiais. Esses tem de ser apreendidos caso a caso e não segue nenhuma regra especifica ~ felizmente são só dois ... quase. Isto pois o suru está agregado a algo que lhe dá significado: lavar a roupa, estudar ou jogar futebol é tudo o verbo suru mas com agregações diferentes.

E agora digam lá se não é melhor explicar a coisa assim do que chamar aos 5D, "primeiro grupo"; aos 1D "segundo grupo"; e às excepções, incluindo todas as ramificações do suru "terceiro grupo" ~ sinceramente ~

Saturday, 24 October 2009

Kanji (七)  車

Há kanji que são muitíssimo fáceis de memorizar e entender. Este é um deles. Pensem numa carroça, daquelas antigas, de madeira, com rodas enormes, que só se vêem nas aldeias, vista de cima... não vos parece qualquer coisa como isto ?
O kanji é kuruma e, muito logicamente, pela evolução dos tempos, significa carro. :)

Kanji (六)  話

Falar. Uma das mais importantes actividades humanas e cujo kanji escrutino agora. é o dito, representando o hana de hanasu, a tradução japonesa do referido verbo. Este kanji é contituido por duas partes, à esquerda e à direita. A primeira parte () é o kanji do verbo comunicar que, por sua vez, é feito com o kanji de boca - - e traços slash palavras slash ideias a voarem por cima dele. A segunda parte () representa o kanji de língua e é constituído por um pau () no meio da boca (): a língua é, afinal, o objecto slash pau que divide a boca a meio. Muito logicamente, a comunicação que é feita com a língua é, como não poderia deixar de ser, a fala. ^_^

Friday, 23 October 2009

Lição V - Ranma 1/2

Angst é a palavra inglesa que, quando aplicada à camadas mais jovens reflecte toda a panóplia de sentimentos, revoltas, mudanças, lutas e revelações que a adolescência oferece. E não é por acaso que, numa boa parte dos animes, os heróis ou anti-heróis estejam a passar por essa mesma fase. Toda a gente a tem e, se o angst da personagem for reflectido no angst do espectador isso cria um laço entre os dois que, depois, é usado para cimentar o anime ~ afinal, fantasiar, com jogos, filmes, livros, sonhos, imaginações ou animes, é uma das melhores maneira de combater ou agir contra esse turbilhão interior.

Então, como é que o anime lida com essa transformação? Bem, em muitos casos tornando-a (metaforicamente) muitíssimo patente a nível físico e, depois disso, mostrar como é que a personagem que sofre essa transformação, lida com ela. Na aula vieram à baila três exemplos. Primeiro o Akira, com a sua transformação física e psicológica num ser superior ao que é humano, em particular no fim do filme com toda a visceralidade da metamorfose a passar diante dos nossos olhos. O Tetsuo, o anti-herói, lida com a sua transformação abraçando-a e desfrutando ao máximo dela... até se aperceber que a transformação o está a destruir e, num momento fantástico na psicologia da personagens, com isso, voltar à criança que era e pedir ajuda ao próprio amigo que tinha abandonado. Em terceiro lugar, perdoem-me a troca de ordem, temos o Shinji, na primeira vez que se fala a sério no melhor anime de sempre. Eu não gostei, o exemplo dado na aula não encaixa no anime e não encaixa na psicologia das personagens, como uma verdadeira "transformação". No máximo seria, como diz o Gendo, o início: contar com a transformação do Shinji em LCL, aquando da sua fusão com a mãe, não diz nada (quase nada) sobre a transformação psicológica da personagens e, muito menos, sobre a maneira que ele tem de lidar com ela ~ triste mesmo, nem numa eula sobre anime se dá o devido valor ao Evangelion. Por fim, em segundo lugar, temos a transformação muito mais leve, cómica e de teor sexual: o Ranma 1/2. Neste anime, talvez conhecido por vós, um rapaz (o Ranma lol) fica com corpo de rapariga ou rapaz mediante é molhado por água quente ou fria e, mediante as subsequentes transformações da série, ele lida com isso querendo sempre tentar reverter a mudança. Ao mesmo tempo, a sua escolhida noiva (sim, pois no Japão isso até era bastante normal) é a rapariga mais tomboy, e como tal, quem menos gosta de rapazes, da série, tornando a dicotomia entre os dois, num clima permanentemente cómico e artes marciais, engraçada de analisar como uma metáfora para essa aventura que é a adolescência, a descoberta do nosso (novo) corpo e a descoberta do outro sexo.
Enfim, uma aula engraçada mas em que fica um travo amargo: afinal como é que não se vê que a verdadeira transformação do Shinji está no filme, é ambígua e, mediante o final que se escolhe, altamente interpretável.



Wednesday, 21 October 2009

Kanji (五)  安

O kanji de hoje é um dos meus favoritos pois, no seu significado mais fácil, penetra profundamente na visão que o Japão tem slash tinha das mulheres. O kanji é , o yasu de yasui, que quer dizer barato. Este kanji é composto por e . O primeiro é, sem tirar nem pôr o kanji para mulher e, o segundo é um pictograma de um telhado. Se, vendo isso, analisarmos como estes dois elementos estão dispostos, facilmente se vê uma mulher dentro de uma casa.
Daqui, a piada corrente e fácil de fazer é que as mulheres, que estão em casa a fazer o que tradicionalmente lhes é destinado, são baratas, como quem diz baixas ou pouco desenvolvidas. Na verdade, é exactamente (?) o contrário: duvido que os antigos chineses ou japoneses gostassem de expor os seus podres tão abertamente, mesmo sem os entenderem. A verdade é que o kanji, mostrando a mulher em casa, onde está protegida (ou a descansar, ou presa...) representa uma paz ou um descanso, por sabermos que ela está bem: a mesma paz, ou falta de dificuldade, que temos em comprar algo barato.
Não tão machista quanto poderia ser não é?

História IV: Yamatai

Durante o fim do período Yayoi, à uns mil e novecentos anos atrás, o imperador chinês mandou enviados ao reino de Yamatai, que ficava localizado na ilha de Wa que, hoje em dia, se chama Japão. Lá, tais enviados, fizeram alguns apontamentos sobre esse povo diferente e até trocaram alguns presentes para, pensasse, promover a diplomacia entre os dois países. O problema disto é que, mesmo tendo uma importância pivô para analisar e descortinar o verdadeiro inicio da cultura japonesa, ninguém sabe onde é que Yamatai. Por outro lado sabe-se que, ou pelo menos assim escreveram os ditos chineses, esse reino era controlado chefiado ou dominado por uma mulher - Himiko - que, aparentemente era casada com um Deus e tinha poderes de mágicos(!).
A questão e uma questão que, até hoje, ninguém consegue, com cem por cento de certezas responder é: quem foi Himiko e como é que ela se liga, se é que se liga, com a eterna e descendente dos deuses, família imperial, a maior dinastia slash linhagem do mundo. Há várias opções. Ela podia ser apenas uma impostora, que enganou os enviados chineses; podia ser uma responsável pela zona a mando do imperador; podia ser mulher de alguém importante; etcetc. Como é claro, a esperança de todos os que buscam a identidade dessa mulher é que, a dita, os leve a uma conclusão sobre o reino que ela tinha (?) e, subsequentemente, ao inicio arqueológico e desprovido de mitos da cultura japonesa. Alas, ideias, correlações e causalidades mais ou menos engraçadas apontam para que ela pudesse ser a tia-avó do décimo imperador Sujin, cujo nome era Yamato-toto-hi-momo-so-hime no Mikoto, pois a descrição de ela ser, de algum modo, uma feiticeira encaixa. Por outro lado, onde está o seu túmulo e, será que ele nos daria uma ideia de onde foi Yamatai? Finalmente, quanto é que se pode confiar nas descrições chinesas quando as mesmas misturam história com mito com uma facilidade tal?
Seja como for, o que se sabe é que, as primeiras descrições históricas conhecidas do Japão vêem desses chineses - a compilação tornou-se no livro Nihon Shoki - e que temos de a usar da melhor maneira. Para ver uma ideia de como é o livro, passo um dos textos lidos na aula. Altamente recomendado, particularmente porque dá para ver o sentido de humor do professor ^^,


* * *


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Alice* and the Chopstick

(Adapted from the Nihon shoki chapter for Sujin, entry for the 10th year 7th month 27th day. Based on Aston’s translation. The main figure in this story is identified in the chapter as the great-aunt of Sujin, the 10th monarch in the official genealogy of the imperial line.)

After this, Alice became the wife of Ōmono-nushi no Kami [the deity worshipped at Mt. Miwa, a sacred site in the southeast corner of the Nara basin]. This deity, however, was never seen in the daytime, but came at night. Alice said to her husband: "As I never see my Lord in daytime, I am unable to view his divine countenance clearly. I therefore beg him to delay a while, so that in the morning I may look upon his majestic beauty." The great deity answered: "Of course what you say is right. Tomorrow morning I will enter your cosmetics case and stay there. But I pray, do not be alarmed at my form."
Curious indeed, thought Alice. Waiting until daybreak, she looked into her cosmetics case – and there was a beautiful little snake, of the length and thickness of the cord of a garment. This frightened Alice, and she uttered a cry. Thereupon the great deity was ashamed, and suddenly changing into human form, said to his wife: "You did not contain yourself, but put me to shame: I will now put you to shame in turn." Rising into the sky, he returned to Mt. Miwa [given as "Mimoro," an alternate name]. At this, Alice looked up and was overcome with grief. Slumping suddenly, she pierced her genitals with a chopstick and died....Therefore the men of that time called her tomb Hashihaka [chopstick grave].
This tomb was made by men in the daytime, and by gods at night. It was built of stones carried from Mount Ōsaka; people standing close to each other passed the stones from hand to hand, thus transporting them from the mountain to the tomb.


*A pseudonym. Her real name, Yamato-toto-hi-momo-so-hime no Mikoto, is so long as to
render smooth reading difficult.

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Tuesday, 20 October 2009

Kanji (四)  買

O kanji que hoje perguntei a minha sensei e que, com a ajuda do dicionário electrónico, lá consegui descobrir o significado. é o ka de kau (買う), que significa comprar.

Se repararem bem o kanji tem duas partes: a parte de baixo que será e uma parte de cima que parecem ser três quadrados juntos dispostos na horizontal. A parte de baixo representa um marisco, mais precisamente e concha do marisco. Marisco esse que, sendo o Japão uma ilha, era usado, em tempos idos muito antes da escrita, pelos japoneses da altura como dinheiro ou, pelo menos como algo que representava trocas mais ou menos monetárias. Sendo assim, o significado foi estendido para representar as coisas que se podem comprar.
E os três quadrados em cima? Com um bocadinho de imaginação conseguem ver que representam a estilização de uma rede de pesca, afinal, comprar é apanhar as coisas que se quer ter, tal como um pescador que apanhar os ditos mariscos :)

Kanji (三)  明

Hoje as aulas da manhã fizeram-me lembrar deste significado: o exemplo clássico das abstracção dos kanji. É ele , o aka que se usa na palavra akarui (明るい), cujo significado é claro, como oposto de escuro. Ora, sabendo os kanji de sol - - e lua - - facilmente podemos ver que, com um bocadinho de foco na explicação e sendo o sol brilhante e a lua brilhante sendo, a combinação é brilho.

+ =

No entanto, verdade é que, antes se usava , o kanji antigamente usado para janela, cuja forma lembra um buraco numa casa, com o kanji de lua (). Ou seja o que era claro, ou o que fazia claridade era a luz da lua a entrar pela janela.

omoshiroi desu ne ~

Sunday, 18 October 2009

Kanji (二)  橋

Já devem saber que os kanjis são unidades simbólicas que representam uma ideia, abstracção ou conceito através de um "desenho" que pode fazer mais ou menos sentido. Hoje exponho aqui um kanji, talvez um bocadito complicado, cuja explicação achei ser válida: , ou seja hashi, ou seja ponte.
Se repararem bem, a parte esquerda deste kanji é uma redução estilizada do kanji de árvore - - que se entende facilmente como sendo a representação de uma árvore com alguns ramos descaídos. Isso faz sentido pois, primordialmente, as árvores eram o meio mais usado para fazer pontes improvisadas entre regatos ou ribeiros.
A segunda parte - - é um bocadinho mais difícil e, ignorando o seu significado, decompunha-mo-la na parte de baixo - - e, na parte de cima, isto () com um quadrado pequeno em baixo. E o que é que tal significa? A parte de baixo () simboliza uma ponte per si, ou seja, o pedaço de terra, pedra ou seja o que for, por onde caminhamos para nos deslocarmos de um sítio para o outro quando o caminho natural é demasiado côncavo para ser usado. Com um bocadinho de imaginação não é difícil lá chegar. A parte de cima - - é mais complicado, mas podemos assumir que é apenas uma modificação do kanji de pessoa - - que aconteceu por uma razão desconhecida; ou então uma modificação da parte esquerda do kanji de Eu ().
Dificuldades à parte se juntarmos o quadro temos uma pessoa a atravessar uma ponte perto de uma árvore ~ e que melhor imagética para simbolizar uma ponte do que essa?
:)




Wednesday, 14 October 2009

Aula de História: III

Hoje, na aula de História japonesa estivemos a ver, de forma arqueológica, como é que a língua japonesa foi formada depois da entrada do pessoas da península coreana e da China no Japão, o que, em última análise, fez com que os montes de dialectos das pessoas que lá estavam fossem destruidos e substituidos, à medida que o poder, na era Yayoi, juntamente coma língua, ia sendo centralizado; coisa que, aparentemente é muitíssimo comum por esse mundo antigo, e não só, fora.
Depois, de forma bastante dinâmica e quase divertida, salvo a excepção de alguns comentários despropositados de algumas alunas na aula, tentamos decifrar o que eram alguns dos objectos que foram encontrados num famoso local de escavação onde se encontrou, na altura, o maior local mais ou menos preservado da era Yayoi. Isto é relevante pois, nesse dito local, não havia qualquer reminiscência de violência: não havia armas, escudos ou fortificações. Isso, para um Japão acabado, na altura, de sair da segunda guerra era priceless, pois era a prova que, o antepassado Japonês, isto é, o povo Yayoi, e, em última análise o presente povo Japonês, antes de ser enganado pela modernidade, pelo pensamento militarista slash nacionalista e, quiçá, pelo próprio imperador, era um povo que ansiava e vivia na maior paz de sempre. Isto, claro, veio a ser cientificamente desaprovado aquando do encontro acidental de um túmulo com um cadáver decapitado e espadas de bronze lá dentro. Mesmo assim, e como para o presente se extrai a história que para o presente mais convém, a imagem da era Yayoi, como um periodo de paz e comunhão natureza, sem as distorções da modernidade e as visões de guerra e fogo e bombas em forma de cogumelo na mente colectiva e, principalmente, como um período para onde era possível dirigir um saudosismo nostálgico (e falso, mas isso não interessa) para o que todos, depois da guerra, desejavam.

Aula interessante é interessante!

Friday, 9 October 2009

Lição III - Atomic Power: Gojira e Astro Boy

O tufão pode ter sido meio fraquinho mas foi o suficiente para as aulas (e o respectivo teste) terem sido canceladas da parte da manhã. E - uff - não da parte da tarde, o que quer dizer que a terceira aula de anime se expunha perante mim. Nesta aula avançamos para o verdadeiro inicio do anime como o conhecemos hoje e, numa analise social do Japão pós-guerra soltamos entre nós as parecenças, semelhanças e porquês sociais de dois fenómenos japoneses da segunda metade deste século: o Godzilla e o Astro Boy.
Pode-nos não ser assim tão trivial como isso, em particular por causa da distância e da rara reminiscência sobre o assunto, mas o Japão foi completamente trucidado na segunda grande guerra. Bombardeamentos impiedosos (e, há quem possa dizer, merecidos) dos Americanos, como por exemplo, os inúmeros ataque de B-29 em Tokyo e as duas bombas nucleares tiveram um efeito profundo da mentalidade japonesa. O mais gritante sendo o imperador, que na escola primária era dado como um ser divino e pai da raça japonesa que, portanto, era protegida por Deus, disse, publicamente, que não era um deus: imaginem o efeito de engano, confusão, estupefacção, traição e a crise de identidade colectiva que sai de uma mudança de cento e oitenta graus como essa. Além disso, no fim da guerra, além da crise psicológica havia uma crise material enorme, não havendo absolutamente nada, nem mesmo para comer, tal como o Grave of the Fireflies nos conta.
Um dos grandes impulsionadores da economia da altura foi a indústria de brinquedos, usando os desperdícios do Americanos, conseguiam-se fazer brinquedos para a venda à própria América. O “Made in Ocuppied Japan” é uma tag, naquela altura normal, que muitos coleccionadores gostam de ter nas suas colecções. E, mais uma vez, podemos ter a ideia do efeito que tal marca teve na orgulhosa e, até há bem pouco tempo, especial e protegida por um poder divino, mentalidade japonesa. Alas, não muito tempo depois da guerra, do Japão, sai o filme que mais marca a colectividade japonesa do período pós guerra: o Gojira, por nós reconhecido como Godzilla. Ver um monstro, vítima de um acidente nuclear, por causa de uma guerra que nada lhe diz, perdido no meio do caos civilizacional e de um mundo que não entende, é reminiscente do que muitos japoneses pensavam e, mais importantemente, sentiam, naquela altura. E, do outro lado da moeda, a devastação criada por esta entidade era facilmente parallisada com a devastação, sentida na guerra. Eis o porquê da popularidade de um monstro destrutivo numa civilização destruída: por um lado a sua inocência e génese era facilmente reconhecida nesses tempos de traição; por outro, a devastação criada era, também ela, facilmente reconhecida nas paisagens de fogo, outrora verdejantes, vividas à tão pouco tempo.
Paralelamente ao Gojira, agora no meio da manga e, depois, do anime, vem um ser que vem marcar o anime para sempre: o Astro Boy. Este robot simpático, com a aparência de uma criança, que só quer ajudar e salvar os outros e, numa temática que se tornaria famosa depois da industrialização, ser humano sem nunca o poder; também foi trazido à vida com o poder, visto no Japão como em mais nenhum lado, da energia nuclear. E as semelhanças com o Gojira acabam por ai. Lutando por um mundo em que robots, humanos e animais vivam em harmonia representa o sonho de um Japão forte, industrializado e pacífico que estava na mente de todos os que presenciaram os horrores da guerra e viam que o futuro estava em juntar o que é mecânico ao electrónico. Mais do que isso, este robot, que embora tenha os poderes e a potência que só um robot pode ter, também, tal como o Japão, não tem uma identidade definida, com o seu coração humano e o seu corpo de criança que não pode crescer. Como é que ele resolve este problema? Bem, vós tendes de ler a manga, mas creio que não é difícil de adivinhar :)



Wednesday, 7 October 2009

Kanji (一)  前

Hoje continuamos, durante as três horas de massacre pela manhã, a lição oito, que corresponde à terceira lição de kanji (dados, diga-se já, mal e porcamente) e foi exactamente onde tive a primeira revelação sobre o importante múltiplo significado dos símbolos e a importância secundária da palavra na língua japonesa.

Explicando, e aviso já que isto pode ser secante para os que não têm interesse nestas coisas, a situação/revelação. O kanji mae () significa, ou melhor, pode significar “à frente”. Ou seja, para dizer que, por exemplo, algo está à frente do portão, usa-se esse kanji embebido na respectiva construção frásica.

車は門の にあります。(sim showoff, eu sei eu sei…)
Kuruma wa mon no mae ni arimasu
Um carro à frente do portão está. (tradução literal)
Está um carro à frente do portão.

Até ai tudo bem. Mas mae () também pode querer dizer o que facilmente se traduziria por “antes” (ou por “falta”) quando usado numa expressão relacionada com tempo. Por exemplo, e tentando seguir a tradução da palavra mae com itálico, para dizer as horas temos o seguinte:

今は九時五分 です。
Ima wa ku ji go fun mae desu.
Agora são nove horas e dez minutes antes. (tradução literal)
Agora faltam dez minutos para as nove.

Infelizmente na tradução correcta toda a semelhança entre o significado de mae nas duas frases apresentadas se perde, mas é fácil (ou não :) ver a lógica por detrás do uso em duas situações tão diferentes o mesmo elemento simbólico. É que tal como o carro está à frente do portão, também as horas que dissemos (nove horas) estão à frente, no futuro, em relação ao tempo presente. Mais exactamente, as nove horas estão dez minutos “à frente” no tempo, em relação à hora (às horas) que agora é: oito e cinquenta. E, como toda a gente sabe, dez para as nove representa o mesmo instante temporal que oito e cinquenta.

Além do mais, mae (), este forte objecto simbólico tem mais usos, por exemplo, para dizer que uma dada figura está numa página anterior de um livro e, aparentemente, para representar localizações temporais passadas num passado definido, como por exemplo "à dois anos" ou "à nove meses"... suponho eu, pois isso será de uma lição futura, pela mesma lógica usada nas horas.

Awesome stuff não é?

Friday, 2 October 2009

Anime: lição II - manga history


E, na segunda aula de anime, falou-se de manga. Isto porque, como toda a gente, sabe a sinergia entre os dois e a dependência do anime à manga é bastante grande. Tendo como base este texto falamos das primeiras coisas que podem ser consideradas mangas e que apareceram em templos antigos há mais de novecentos anos, em particular o choju giga (animal scrolls) pelo Monge Toba que, com sorte, irei ver durante a minha estadia por aqui, e os jigoku zoshi (hell scrolls) usados por monges na aurora dos grandes movimentos religiosos no Japão para mostrar às populações não instruídas das aldeias o que lhes aconteceria se não se "portassem bem". É engraçado que o primeiro trabalho que pode ser considerado um slasher tenha uma índole e uma presença religiosa tão forte :) Passamos, depois, pelo século doze, na era Kamakura, em que se usava, pela primeira vez, texto e imagens para estabelecer uma narrativa coesa.

A história seguiu para as pinturas usadas para abrir a mente dos estudantes zen (sabiam que, em zen, a resposta para “Qual é o som de uma mão a bater?” é descalçar uma meia, coloca-la na cabeça e sair da sala?) e para shunga, no período Edo, que era o que neste período - de mil e seiscentos a mil oitocentos e sessenta e oito - se usava como pornografia no Japão (agora, ironicamente proibida neste país, por causa de influencias estrangeiras, sendo que apenas se pode ter acesso a estas obras, precisamente, no estrangeiro :s)
Por estes lados temporais surgiam também as primeiras novelas – visuais e não só - imprimidas em cartões de madeira e direccionadas para a população recentemente educada pelas revoluções educacionais desta era. O processo de impressão era engenhoso, em particular com o uso de cor: cada cor era desenhada na madeira como se o desenho estivesse a ser visto por um espelho e depois decalcado em papel; e claro que cada cor tinha de ter o seu pedaço de madeira, sendo o sincronismo espacial entre os pedaços da maior importância e dificuldade de modo a representar uma imagem mais ou menos complexa. Também por este processo de produção em massa se faziam os ukiyo-e, ou “imagens do mundo flutuante”, de onde sai imagem a super-conhecida imagem que acompanha este post, usadas para divertir, maravilhar, enfeitar e também para dar uma certa atmosfera aos red-light districts - sitios de diversão e não exactamente (só) de prostituição - da altura. E aqui abro uns parênteses com uma curiosidade, não sei se o nome depois foi transferido para a Europa, mas o nome de red-light, pelo menos por aqui, tem duas origens. Primeiro como é visto e revisto e referenciado numa multitude de locais que os mostram, as luzes destes sítios estavam cobertas com coberturas de papel circular vermelho; e, por outro lado, nos mapas das cidades estas zonas eram as únicas que estavam marcadas com tinta vermelha, numa espécie de mensagem não escrita para toda a gente que já a sabia XD

Entrando no período Meiji, nome facilmente reconhecivel pela sua recorência no mais do que famoso Samurai X, as influências do ocidente começaram-se a sentir em todo o lado, incluindo no meio que viria a ser manga como a conhecemos hoje. Foi por aqui que se começou a fazer os primeiros “quadradinhos” no Japão, influencia pelo que se fazia na altura nos Estados Unidos. Em particular os senhores Charles Wirgman e George Bigot lançaram revistas/suplementos de comics japoneses, que mais tarde se viriam a tornar as referências históricas da manga. Maioritariamente com humorísticas, estas revistas pegavam no dia-a-dia japonês depois da abertura do Japão ao mundo, por exemplo o tirar os sapatos aquando de entrar num comboio, samurais de casaco e chapéu ou os olhos maravilhados com a primeira bicicleta, e foi por esta zona que se começou a usar balões para representar quem diz o quê.
Os kamishibai, contadores itinerantes de histórias para crianças usando papeis pintados com imagens que iam sendo mostrados num mini-palco de teatro montado na traseira da sua bicicleta, atingiram o seu pico nesta época, tendo sido praticamente dizimados com a chegada da guerra e, mais tarde e mais gravemente, em mil novecentos e cinquenta e três, da televisão.
Durante a segunda grande guerra, manga reduziu-se a ela mesma a um veículo de propaganda, tal como se passava com outros meios de expressão em todos os sítios do globo. Visões caricaturadas de Roosevelt a parecer Mr Hyde e de Churchill como um elefante gordo eram, aparentemente, o prato do dia.

Por fim, a manga foi revolucionada, evoluida e cinematograficada pelo génio Osamu Tezuka, considerado por todos o pai da manga moderna, que introduzio praticamente todos os traços - efeitos sonoros, efeitos visuais, diferentes prespectivas visuais sobre o mesmo acontecimento, tridimencionalidade de desenho e profundidade das personagens e da acção - que hoje conhecemos por serem de manga. E, pouco depois disso, a par da evolução técnológica que marcou o Japão pós-guerra, foi feito um anime, meio de transmição, hoje em dia, muito mais popular que manga, acredito eu, por preguiça das mentes humanas, serializado na TV, da sua maior obra: o Astro Boy, do qual vimos o primeiro episódio. Mas isso, isso será uma outra história!

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