Sunday, 18 October 2009

Nipponbashi

Nipponbashi, o local cuja palavra é construida com os kanji de nippon (Japão) e ponte (hashi) é o distrito de Oosaka a que se poderia chamar Akihabara, se a cidade fosse a capital do país. Aqui, entre prédios altos e anúncios que gigantes há uma quantidade enorme de lojas, depatos (lojas enormes com vários andares, muitas vezes temáticos) e recantos com tudo, e repito tudo, o que alguém com um interesse em tecnologia e as mais diversas subculturas baseadas em manga e anime, pode querer comprar ou desfrutar. Hoje, aproveitando a boleia de um grupo de japoneses que precisava ou queria ir a tal espaço, fui, juntamente com mais dois rapazes, a este paraíso que simultaneamente ... é estranho. A animação das ruas é vibrante, montanhas de pessoas, com uma clara predominância da estirpe masculina, caminham pelas ruas de loja em loja entrando nelas que nem suricatas a entrar e sair dos seus buracos. Não faltava o ocasional casal vestido à EGL, nem as ocasionais cosplayers, hoje, aparentemente, todas elas ao serviço de uma loja qualquer e, por essa razão, proibindo as fotos. Num pormenor interessante, pelo estereótipo que fortalece, não faltou o rapaz-que-se-via-a-léguas-que-não-tinha-qualquer-capacidade-social, como era facilmente visível pelas sua cara, expressão, pose e companhia - a sua mamã – nem o rapaz com um montão de sacos com caras e imagens de meninas anime, a olhar, libidinosamente para um, igualmente interessante, carro que continha os ditos desenhos pintados. Algo que, estranhamente ou não, não é assim tão anormal, naquele lado do mundo.



* * *

As lojas, esses buracos de roedores, em suma, dividem-se em dois tipos distintos: as lojas de tecnologia, onde se pode encontrar tudo com esta relacionada, desde consolas em segunda, terceira ou quarta mão, cabos, monitores e as mais diversas peças para os ditos computadores ou seus primos, e as lojas de jogos slash anime que, muitas vezes, para não dizer sempre, partilhavam o mesmo espaço como, penso eu, materiais explicitamente didácticos. Estas lojas não raramente eram caixinhas surpresas: se o espaço que se vê, contendo aquilo que de mais popular se pode vender de entre jogos, manga, anime e bugigangas, era apertado e cheio de pessoas, entrando nas suas entranhas mais profundas, subindo um elevador não tão escondido como devia ou um lanço de escadas cujas paredes estavam cravejadas de posters, tínhamos novos universos , muitas vezes de surpreendente tamanho, de material eximiamente dividido entre as mais diversas temáticas. Essas, vão desde jogos para consolas, sofware para PC e Mac, mangas para rapazes, mangas para raparigas, DVDs de series de animes, filmes de anime, figuras e modelos de todo o mais alguma coisa, os mais estranhos e improváveis artigos de merchadizing, todo o tipo de jogos, mangas e filmes etchy e hentai e pornografia. What??


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Oh, yes. É mesmo isso. Quando disse que se podia encontrar tudo para os homens que vivem sozinhos com bonecas de anime não estava a brincar. O que choca mesmo é a naturalidade como passamos, sem aviso absolutamente nenhum e dentro do mesmo andar, da secção de animes admitidamente para raparigas (Clannad, EF, etc.) para a secção de filmes hentai ou, como se vê na figura, da secção do Windows para a secção dos jogos hentai que, aparentemente são completamente massivos em número (mais de dois andares quase exclusivamente dedicados a eles) e “váriados” em temática (vamos só dizer que, nesses colossos de vendas, comboio, tentáculos e saia não são palavras desrelacionadas). Tudo o que pensam que sabem sobre o mercado de pornografia, em particular pornografia em animação, muito provavelmente é o topo do iceberg até passarem por uma destas lojas. É engraçado ver que, os posters que forram as paredes das escadas que nos levam a tais antros são, se olharmos com atenção, avisos sub-reptícios, por exemplo um número demasiado elevando para ser coincidência de meninas anime cujas cuecas se vêem ou decotes propositados, de que nos estamos a aproximar de uma zona no-no para crianças, que, de resto, navegam, livremente pelo espaço. Várias coisas que me recordo de achar engraçadas e/ou chocantes foram: o sinal, mostrado na foto, minusculo, que diz "se tiver menos de dezoito anos não olhe"; o stand da Microsoft, como referido, a vender o novo Windows 7 estar juntamente com os jogos mais puxados; e o facto de ver uma mãe com dois filhos a passear, com todo o a vontade do mundo, por uma secção particularmente chata.



















Muitos dizem que o Japão é um país meio doente em que há muitos suicídios, onde se trabalha de mais, ode as mulheres não tem um lugar digno, onde os homens são frustrados, onde a rica tradicionalidade desaparece de dia para dia, onde a emergente repressão social é extraordinariamente violenta e onde as pessoas são inerentemente infelizes sem nada poderem fazer para mudar ou lutar contra isso ~ isso eu (ainda) não sei, mas sei que este à vontade na venda de sexo em praça publica é uma peça essencial para desvendar o puzzle deste país.

Kaiten Sushi: Oosaka version

Oitocentos e noventa iens. Menos de um metro de espaço. Água gelada e chá verde à borla. Uma passadeira rolante. Sushi, sushi, sushi e mais sushi, infinitamente, recorrentemente, transcendentemente a correr do lado direito para o esquerdo, mesmo à frente dos meus olhos. Sushi com camarão, sushi com polvo, sushi com lula, sushi com salmão, sushi com paixes desconhecidos e inclassificável, sushi com wasabi, sushi com verduras, sushi com bolinhas cor de laranja completamente deliciosas, sushi com nori, sushi sushi sushi. Finalmente, depois de vinte e três pratos e aproximadamente depois de quarenta pedaços de sushi, o almoço, por razões que só o dolorosamente cheio estômago conhece, acaba. aiai ~



Manhã numa Oosaka chuvosa



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De manhã, depois de ter acordado às nove e picos, saindo na massiva estação de Oosaka Nanba, deparamos-nos com uma simpática chuva que torna toda a gente, os japoneses que povoavam as ruas, os policias que nelas trabalham e as pessoas com quem me encontrava, em simples encontra-tectos.
Rapidamente fomos para o hondori, a rua coberta onde se encontram as mais diversas lojas, para descobrir, como a foto demonstra, por exemplo, uma casa de jogos, cuja entrada está bem por baixo do sub-solo, como que a condenar, a uma vida reclusa, todos os que lá entram, e, a meio da dupla passadeira que cruza essa avenida de lojas, um raro adormecido, que afinal, também têm "casa" em terras nipónicas.
Rápidamente chegamos ao nosso destino, um restaurante, de que falarei em tempos próximos.


Kanji (二)  橋

Já devem saber que os kanjis são unidades simbólicas que representam uma ideia, abstracção ou conceito através de um "desenho" que pode fazer mais ou menos sentido. Hoje exponho aqui um kanji, talvez um bocadito complicado, cuja explicação achei ser válida: , ou seja hashi, ou seja ponte.
Se repararem bem, a parte esquerda deste kanji é uma redução estilizada do kanji de árvore - - que se entende facilmente como sendo a representação de uma árvore com alguns ramos descaídos. Isso faz sentido pois, primordialmente, as árvores eram o meio mais usado para fazer pontes improvisadas entre regatos ou ribeiros.
A segunda parte - - é um bocadinho mais difícil e, ignorando o seu significado, decompunha-mo-la na parte de baixo - - e, na parte de cima, isto () com um quadrado pequeno em baixo. E o que é que tal significa? A parte de baixo () simboliza uma ponte per si, ou seja, o pedaço de terra, pedra ou seja o que for, por onde caminhamos para nos deslocarmos de um sítio para o outro quando o caminho natural é demasiado côncavo para ser usado. Com um bocadinho de imaginação não é difícil lá chegar. A parte de cima - - é mais complicado, mas podemos assumir que é apenas uma modificação do kanji de pessoa - - que aconteceu por uma razão desconhecida; ou então uma modificação da parte esquerda do kanji de Eu ().
Dificuldades à parte se juntarmos o quadro temos uma pessoa a atravessar uma ponte perto de uma árvore ~ e que melhor imagética para simbolizar uma ponte do que essa?
:)




Saturday, 17 October 2009

O jantar de hoje ...

... num restaurante pequenininho na gigantesca estação de Oosaka.

O concerto de Koto

Hoje foi dos melhores e mais surpreendentes dias desde que cá cheguei. As aulas correram como sempre, com a aceleração já habitual, e, para o almoço, fomos convidados, toda a gente que usa o português como língua e expressão, para almoçar com uma professora de português daqui e uma simpática senhora que trabalha para a NIFS, a fundação internacional de Nara que promove eventos e dá informação todos os que por aqui passam, de visita ou não. A concerta, só por si foi interessante, em particular por essa senhora que tem um dinamismo e uma lucidez raramente vista por estas, ou outras, paragens. Mas o que verdadeiramente foi marcar o dia foi uma outra senhora – Rose-san – de origem Filipina, que estava lá como que caída do céu. Conversa puxa conversa e, aparentemente o meu charme (lol) ou magia (lolol) ou sorte (LOL) ou o que lhe quiserem chamar, também funciona em meninas d quarenta anos que parecem estar na casa dos vintes a passar para os trinta e, por entre um inglês misturado com japonês e uma conversa que passava pelo meu cabelo, por Jesus Cristo, personagem que, por aqui, aparentemente, encarno, pela viagem com a minha irmã no metro de Nova York onde lhe encontramos um indesejado marido, pela sociedade e emoção japonesa, pela religião no Japão, e outros temas, fui (fomos :) convidado para ir assistir, nessa mesma noite, a um concerto profissional de koto, um instrumento japonês de cordas, muitíssimo popular por estas bandas, em Oosaka. Como recusar tal maravilha e, paralelamente, como não ficar maravilhado com toda a velocidade, surpresa, invulgaridade e estranheza da situação?

Como combinado, exactamente às quatro e trinta e três, e depois de, de forma muito japonesa, entregar um /omiage (presente) à nossa simpatiquíssima anfitriã, estávamos todos a apanhar o comboio que nos levou a Oosaka. Passamos por muitas estações até ai desconhecidas, apanhamos, pelo caminho, mais algumas pessoas, que pouco ou nada de inglês falavam e, por fim, passado pouco mais de uma hora, estávamos no nosso destino. Na estação, ou melhor, nos confins labirínticos, urbanos e imensamente alienantes da mesma, comemos num restaurante em tudo tradicional, mantendo a conversa enquanto a expectativa crescia e, por fim, saindo do dédalo na rua slash avenida Mido-sujie, dirigimo-nos para o alto edifício de vidro do outro lado da rua onde, não coincidentemente, se encontrava o espaço onde o espectáculo tomaria forma.
Agora eu poderia falar no publico japonês e muito misturando o informal com o formal; poderia falar da proibição de filmagens, por haver material inédito, e de fotos, por perturbar o público envolvente de quem as tira; poderia falar nas condições do espaço, na limpeza e conforto das cadeiras; na beleza, quase zen, do ambiente que me envolvia. No entanto, apenas posso soltar suspiros vão para aquele que foi um dos melhores concertos a que tive o privilégio de assistir. Tudo foi perfeito: a mestria, por vezes surpreendentemente rápida, de quem tocava; a leveza, detalhe e naturalidade de todos os mais pequenos movimentos; a suspensão do tempo e do espaço no que se encontrava de frente dos nossos olhos; o cenário mutável e paradoxalmente assombrado de onde a música saía. A música. Nunca teria conseguido imaginar que koto, jushichigen e, ocasionalmente, voz, shamisen e shakuhachi, tivessem tal poder, virtuosismo, liberdade, emoção, diversidade, fluxo e clímax. As peças foram desde composições que tocavam o classicismo japonês, às modernas que pareciam tão esquizofrenicamente fantásticas e oniricamente surreais como os nomes, como, por exemplo, uma “mosca em cima de uma frigideira”, que, justamente, que lhes deram. A estupefacção sentida na quarta e sexta música nunca me sairá da cabeça.
Tenho também de mencionar três pessoas: uma, a terceira, filha dos japoneses que encontramos ao longo do caminho para Oosaka e, indirectamente, essencialmente a razão porque, naquele momento, assistimos a tamanha beleza. Depois, as duas estrelas mais brilhantes nesse firmamento. Uma delas, uma tranquila senhora, parecendo bastante alta para japonesa, que devia ter os seus cinquenta anos e que tocava com a leveza completamente impressionante de quem tem uma criança a brincar a controlar-lhe os movimentos; e, a outra, uma senhora, viemos a saber de sessenta anos (!) que, embora muitíssimo baixa, em tudo fazia lembrar um furacão de energia, actividade e haki musical, que, de resto, em tudo transpareceu para o palco, fosse a frente de um koto ou a cantar com um shamisen nas mãos. Elas, aparentemente eram as masterminds por detrás do grupo o que, dado as suas idades e perícia, não surpreende.

A única coisa que mudava nessa noite - dia – tão cheio de surpresas é o facto de não puder ter filmado o concerto, mas até isso, com sorte, é tratado: dada a “insistência”, depois de algumas perguntas de onde conseguiríamos re-ouvir o que tínhamos experimentado, foi-nos dito que teríamos a gravação da noite aquando essa fosse trabalhada ~ vamos ver se os japoneses são tão certinhos com parecem XD

PS: E tudo isto – comida, viagens concerto – oferecido. Por estarmos sozinhos no Japão, longe da família e dos amigos e da vida que tínhamos; por estarmos a dar o nosso melhor num pais estranho, assustador e tão diferente; por sermos, como dizem os japoneses, kawaisou (cuitadinhos), a pratica, japonesa, é não nos deixarem pagar nada, algo que, a certa altura causa algum constrangimento mas que nos deixa fascinados com a cultura, por vezes, simpaticamente nos abraça ^_^

Introdução aos adjectivos

Na aula de hoje: vinte e três adjectivos novos, a norma de os usar sozinhos, a forma de os usar em sequências de adjectivação, a forma de os negar, a forma de os unir a um nome e os kanjis de uns cinco deles. E depois querem que não confundamos o akarui (claro) com o karui (leve) e usui (fino., para livros) com hosoi (fino para objectos circulares) … aiai ~

Friday, 16 October 2009

A organização da recepção

Mesmo tirando a comida, a recepção foi bastante boa. Isto graças aos inúmeros esforços dos estudantes estrangeiros que, de uma maneira muito japonesa, orquestraram performances de música (tradicional e não só, também se cantou Queen), jogos em que todos participaram, poesia alemã, canções meio melancólicas da Ucrânia, exploração de instrumentos musicais indonésios, um teatro tailandês, canções cantadas por meninas chinesas e - surpresa - até uma espécie de karaoke feito pelo reitor da universidade.

No entanto, o que é (mais) interessante aqui é denotar o quão japonesa era a atmosfera e o próprio evento em si. A organização apenas dava os meios para as coisas acontecerem e os detalhes, performances, planeamentos, eram pensadas, treinadas, feitas e executadas pelos estudantes. Como já verifiquei mais vezes, este é o statu quo por aqui. E funciona brilhantemente. A pró-actividade é posta em acção e é quase emergentemente imposto um dinamismo nos que, de outra forma, apenas assistiriam a tudo. Se a isso juntarem a colectividade japonesa, com os seus inúmeros, e desde tenra idade criados, grupos de isto e aquilo para fazer aquilo e acoloutro, têm uma força anti-inercia gigantesca e inúmeras oportunidades para a criação de laços interpessoais e de, como diria o meu professor de gestão, riqueza. É meio triste pensar que nunca na vida haveria um sucesso fundado por uma participação tão pró-activa em seja o que for desse lado do mundo.

Comida da recepção

Este post é para não misturar a comida com a história, se não seria difícil de me focar no que aconteceu. Hoje, dia quinze, depois de três semanas de aulas, foi o dia em que os estudantes de outros países foram apresentados à escola. E, como não poderia deixar de ser, havia comida japonesa para as cinquenta pessoas que ali se encontravam. As fotos falam mais do que as minhas palavras, os nomes, esses, por ordem, são: yakisouba, uma espécie de chopsuey muito popular por aqui, nem faltando, por cima, vermelhos, os umeboshi; tenpura de camarão que estava soberba; sushi, do qual comi mais de vinte peças; salada com carne e maionese (???); e uma espécie de sopa de carne, polvo e o que parecia ser gordura mas era batata cozinhada de modo muito estranhos com, cujo nome ficou perdido nos anais da memória. Havia mais coisas como aperitivos parecidos com hóstias de camarão e coisas com ovos e montes de furta e etc. Comeu-se bem essa noite! :D
No fim ... bem, vamos só dizer que a noite (e até a manhã) foi difícil de aguentar com tal indigestão :| ~ anyway totally worth it!


10/41 sleeping

É sabido, por aqui, que as aulas de história dadas em japonês por um japonês, costumam ser engraçadas. Em geral nunca é uma aula, nessas, já se foi a túmulos, museus e até a outras cidades visitar as mais diversas coisas que, com sorte, interessarão os alunos e enriquecerão as mentes. A aula de hoje foi uma excepção. Primeiro para mim e para muitos dos presentes, uma aula totalmente em japonês é complicado de entender a nível semântico e, logicamente, também o é a nível de matéria. Sendo assim, no final da aula, numa reflexão pessoal, apercebi-me que durante os noventa minutos de aula entendi umas três palavras; que dos quarenta e um alunos, dez deles estiveram a dormir, com as respectivas cabeças deitadas sobre os braços, enquanto o professor desbobinava os segredos do Japão antigo; e que, na verdade, uma aula em que não se entende nada até dá jeito para ir estudando a matéria que ainda não está em dia ^.^

Lição IV - Akira

Nem a propósito, a aula que terminou à hora que marca este post, foi, precisamente, sobre o Akira. No entanto a aula foi mais sobre o que é que é dito sobre a sociedade japonesa no Akira do que sobre o Akira. Eu tentarei expor aqui, os principais ou mais interessantes pontos. E by the way, antes de ler isto, quem ainda não viu essa magnifica monstruosidade, devia faze-lo. E sim, eu vou admitir que me escutaram XD

Primeiro e para verdadeiramente entender as implicações a situação das pricipais personagens, temos de olhar para o que é que elas são: Bosozoku. Os bosozoku, como muitos de vocês não devem saber, são os gangs de motas que andam pelo Japão. Até em Tenri, cidade religiosa por excelência, por vezes, na calada da noite, eu os oiço. Tipicamente esta gente tem motas grandes e, não raramente, muito mais trabalhadas que o normal, faz barulho a mais particularmente quando não é permitido, não param no vermelho e gostam – muito - de se mostrar exibindo as suas preciosas motas e o seu estilo, com cabedal como os motards dos USA, lenços à volta da cabeça como os pilotos kamikaze e simbolismos militaristas como do Japão pré-guerra, influenciado por outros contextos, que modificaram como sendo seu.
Mas, porquê a raiva que os divide e os faz sair da “sua” normalidade japonesa? Para isto temos de requer um bocadinho atrás até ao Japão pós-guerra, e até ao inicio destes gangs. Que ideia do Japão tem os nossos avós ou pais? (Sim, estou a falar para pessoal da minha idade, os com mais anitos que me acompanham, sei que vão perdoar esta discriminação ^^) Provavelmente, se perguntarem, vão-vos dizer que é um sítio onde se produz, modifica, ou melhora alta tecnologia e isso é exactamente a ideia do Japão que o governo do pos-guerra queria passar para o exterior. Para isso, toda e repito, pois é importante, TODA a produção do Japão, seja motas, carros ou electrodomésticos, estava a ser exportada nos anos sessenta, uma tendência que só desaparece bem no meio da sétima década. Agora imaginem como é que um japonês, que trabalha numa fabrica da, digamos, Yamaha ou Suzuki, ambas empresas criadas e pensadas no Japão, que todos os dias toma parte na construção de motas, que adora as próprias motas que ele constrói e que, paradoxalmente, não as consegue comprar por todos, sem excepção, irem para o mercado estrangeiro? Isso, com certeza, dará origem a alguma frustração. Se foram um jovem com muitos amigos, com o mesmo amor pelas de duas rodas, tal pode vir a dar origem a uma nova subcultura.
Mas isto apenas explica o porquê das motas e não porquê do gang, e requer uma outra visão sobre a sociedade japonesa: a separação de classes. Nós, de fora, como estrangeiros, vemos os japoneses todos iguais (na verdade, desde que cá estou isso é-me cada vez mais mentira): olhos em bico, fato e gravata, uniformes para aqui, uniformes para ali, malas negras, telemóveis de forma estandardizada, crianças com bonés amarelos na cabeça. E o que sentirão essas pessoas que são forçadas em tal sistema, onde a identidade quase que desaparece? Algumas, as que não tem a força de viver do seu pico (?), estarão nas suas quatro quintas. Mas as outras, sem dúvida, terão alguns problemas com tão violenta perda de identidade. Adicionar a essa Bokanovskyação (referência meio obscura ao Admiravel Mundo Novo ~ read it!) temos algo que, tantas vezes, como estrangeiros, nos passa completamente ao lado: os white colors (trabalhadores respeitados e com 'altos' cargos) e blue colors (trabalhadores menos bem vistos que fazem trabalho de uma natureza não tão complexa) da/na sociedade japonesa. O Japão está a mudar, mas, quase tradicionalmente, o percurso na vida de uma pessoa era decidido pela quantidade e qualidade de educação que essa pessoa recebia. Uma razão óbvia para a pressão nas crianças, que se não entrassem/entrarem numa boa universidade tem a vida estragada, e, sendo meio mauzinho, para o suicídio no Japão, é também um razão de revolta para muitos dos que sentem que essa não é a melhor maneira de construir e viver numa sociedade. Isto, é claro, como muitos terão dificuldade em entender, é pura percepção e construção social, visto que, em termos económicos, as diferenças entre quem está nas entradas das estações a picar os bilhetes de quem entra e quem está a gerir as estações não é assim tão abismal como, digamos, na América.
Então o que é que nós temos? Uma sociedade em que não se pode comprar as motas e as coisas que são produzidas, que rebaixa socialmente todos aqueles que não encaixam naquilo que se diz ter de ser feito por todos, e que retira de forma quase Huxleyana (lol) a individualidade. Não admira que algo como os Bosozoku tenha sido gerado. Estes, por sua vez, forjam uma nova identidade com seu grupo, as suas motas, as suas roupas, a sua independência e as suas regras, totalmente diferentes e sem qualquer ligação com a sociedade que não aceitam e que não os aceitou. E, também de modo meio lógico, a melhor maneira de expor essa mesma identidade, tão diferente e tão “deles” é mostra-la de todas as maneiras possíveis aos “outros”? Numa sociedade em que todos os pregos que saem são re-martelados, numa sociedade que em que o dar nas vistas, mais do que despropositado é, quase, temido e visto como uma coisa impossível por (quase) todos os que têm esse pensamento, que melhor maneira para dizer ‘Nós não somos iguais a vocês, formigas insignificantes afogadas no esterco irrespirável do suor abafado dos que vos são iguais!’ (as catorze últimas palavras da minha autoria mental... provavelmente :)?

Depois de tal e exploração, com muitos mais detalhes do que aqui apresentados, da vida japonesa, fomos para o anime em si em que a violência do gang, a corrupção da sociedade, a perdição das mentes, a atitude colectiva e a tecnologia são exacerbadas umas quantas milhas acima do nosso tempo. Fala-se da destruição social, não esquecer que o filme começa e termina com uma bombas a destruir a cidade, necessária para uma renovação que não parece acontecer; fala-se do herói da história, como alguém que, pelos seus valores e integridade, embora não dentro da sociedade normal, merece, mais do que os restantes, er salvo; fala-se do anteriormente protegido e, por isso mesmo, revoltado e posteriormente super-poderoso e sem controlo sobre si Tetsuo, o anti-herói e personagens principal; fala-se da bomba viva, no filme dolorosamente literal, que é a raiva interna, a injustiça e a falta de entendimento da presente situação; fala-se da emoção como enzima para o poder, algo que é recorrente em virtualmente todo o anime, e, neste caso, a destruição; toca-se nas inúmeras sub-plots tocadas no filme e completamente exploradas na manga e, por fim, por intervenções não planeadas, no aspecto técnico e referencial dentro do espectro da animação japonesa. A aula, essa, facilmente esquecida entre o interesse da mesma, acaba com a visualização dos quinze primeiros, e altamente violentos, minutos do filme.

Happy class indeed.



Akira

Ora, bem. O que é que se pode dizer sobre este filme que não seja uma repetição do que já foi imensas vezes dito? Não que é um clássico; não que foi uma tour de force técnica que ainda hoje é surpreendente; não que explora toda questão de juventude quase raivosa com a sociedade que os rodeia e mata devagarinho; não que é uma critica à reformulação e até à necessidade de renascimento dessa mesma sociedade, não que tem algumas das melhores cenas que, mais tarde, vêem a influenciar toda uma nova geração de novos animes, não que funde a música e a imagem de forma quase perfeita.
Posso é tentar dizer a todos - os que já o fizeram à tempos idos e os que ainda não tiveram esse prazer – para o verem e, quiça, reverem, pois é das melhores coisas que podem por a passar no vosso televisor/computador. Eu filo, daqui a seis dias, e foi awesome! :D

Tenri Kodomo Omatsuri

Durante a muito pequena e altamente atarefada hora de almoço de hoje, fui ver o festival das crianças de Tenri. Parecido com o de Kashihara também tinha um desfile de carros tradicionalmente alegóricos com crianças de caras brancas e faces rosadas a tocar tambores lá dentro. Infelizmente não deu para ver o desfile todo pois a melhor aula da semana aproximava-se a tal velocidade que, acho eu, cheguei atrazado ^^,



PS: vídeo com má qualidade tem má qualidade ~ foquem-se só no baru~música que eles fazem XD

Pastilha de carne

Hoje, sem o saber, uma amiga minha vinda da China ofereceu-me algo cujo conceito já tinha imaginado em tempos idos em que rumava as ruas nocturnas de Portugal: uma pastilha de carne. Bem, sejamos francos, não é bem uma pastilhas, nem um rebuçado, como, de resto, aparente, é antes uma espécie, se bem entendi, de aperitivo feito com carne de vaca seca, um molho que, em tudo, é chinês, e, pelo que parece, sementes de uma planta que bem pode ser um girassol. Ou seja, o mais parecido que já provei com um halls de carne. E sim, é muitíssimo bom! :)

Caos de particulas

Em japonês, como alguns saberão, há um monte de partículas que indicam, entre outras coisas o com quem, o como, o onde, o o quê, o desde quando, etc. E o problema aumenta quando uma só partícula tem usos, aplicações, perspectivas e interpretações completamente diferentes mediante o contexto, frase ou local em que é usada. Hoje na aula explorou-se as diferenças entre a partícula ka, quando agregada a uma palavra interrogativa e a sua diferente em relação à mesma palavra sem a dita. A teoria é fácil, mas a diferença entre ouvir, numa frase dita num japonês demasiado rápido, dokoka e dokohe é abismal. Como diz a minha sensei destas lados "onagi deha arimasen" (não é igual), referendo-se que saber algo teórico entro da cabeça é muitíssimo diferente ao conseguir usar esse mesmo conhecimento de maneira prática com a boca. aiai ~

Global Handwashing Day

Those crazy Japs >_>


Thursday, 15 October 2009

Teatro português em japonês

Hoje à noite, não sei muito bem como, fui, juntamente com o pessoal que fala português daqui, a um ensaio do Clube de Português (do Brasil) da Universidade, para ver e "ajudar nos gestos", que aparentemente são diferentes, de uma peça de teatro recitada em Português. Por agora, numa fase inicial, o ensaio ainda foi Japonês para entrar dentro das personagem. A história foi criada pelo clube e é a típica história de amor, mas passada com uma miúda da favela e uma pessoa normal. Pormenores à parte, é engraçado ver o funcionamento do clube e do próprio ensaio. Gritar à janela da sala de modo a espiritualizar os presentes, actuar uma cena focando-se em pormenores como o dizer e o virar, e rever o guiam de modo a torna-lo mais Brasileiro foram algumas das actividades.
Depois fomos para o clube em si: uma espécie de sala onde os membros, mesmo aqueles que nada fazem, vão para simplesmente estar com o pessoal - uma desculpa triste de um café mas uma perspectiva interessante para uma sociedade que, em boa verdade, não os tem. A comida não estava nada especial e a música, que ia desde os clássicos brasileiros até à Disneys também não ajudava. De qualquer modo ~ foi giro!





Crepúsculo

Porque o filme ainda não destruiu a palavra e porque o sol estava deveras bonito.

Wednesday, 14 October 2009

O jantar de hoje

Aula de História: III

Hoje, na aula de História japonesa estivemos a ver, de forma arqueológica, como é que a língua japonesa foi formada depois da entrada do pessoas da península coreana e da China no Japão, o que, em última análise, fez com que os montes de dialectos das pessoas que lá estavam fossem destruidos e substituidos, à medida que o poder, na era Yayoi, juntamente coma língua, ia sendo centralizado; coisa que, aparentemente é muitíssimo comum por esse mundo antigo, e não só, fora.
Depois, de forma bastante dinâmica e quase divertida, salvo a excepção de alguns comentários despropositados de algumas alunas na aula, tentamos decifrar o que eram alguns dos objectos que foram encontrados num famoso local de escavação onde se encontrou, na altura, o maior local mais ou menos preservado da era Yayoi. Isto é relevante pois, nesse dito local, não havia qualquer reminiscência de violência: não havia armas, escudos ou fortificações. Isso, para um Japão acabado, na altura, de sair da segunda guerra era priceless, pois era a prova que, o antepassado Japonês, isto é, o povo Yayoi, e, em última análise o presente povo Japonês, antes de ser enganado pela modernidade, pelo pensamento militarista slash nacionalista e, quiçá, pelo próprio imperador, era um povo que ansiava e vivia na maior paz de sempre. Isto, claro, veio a ser cientificamente desaprovado aquando do encontro acidental de um túmulo com um cadáver decapitado e espadas de bronze lá dentro. Mesmo assim, e como para o presente se extrai a história que para o presente mais convém, a imagem da era Yayoi, como um periodo de paz e comunhão natureza, sem as distorções da modernidade e as visões de guerra e fogo e bombas em forma de cogumelo na mente colectiva e, principalmente, como um período para onde era possível dirigir um saudosismo nostálgico (e falso, mas isso não interessa) para o que todos, depois da guerra, desejavam.

Aula interessante é interessante!

Momiji e estudo

Por aqui, o tempo continua a mudar. O frio vai, lentamente avançando e as minhas camisolas já aumentaram o seu número. Com ele, as folhas ganham as cores que, com sorte, daqui a algumas semanas verificarei, na perfeição, em Kyoto, O local, por excelência, para ver essa mudança anual.
As aulas, depois do caos inicial já estão mais aceitáveis, embora uns minutos de distracção nas mesmas possam ser fatais. Hoje, por exemplo, só a nível de verbos, demos suru, kiku, taberu, narau, oshieru, nomu, miru, yomu e kakiru; que são fazer, ouvir, comer, aprender, ensinar, beber, ver, ler e escrever respectivamente. E mesmo assim, esta lição é infinitamente mais fácil que a lição das horas ~ essa trocou-me a cabeça toda! Nem quero pensar como é que vai ser a dos dias :|

Tuesday, 13 October 2009

Nara, escondida

Mais algumas fotos de uma part meio escondida de Nara. Na última, um casal de velhinhos que me deixou, simpaticamente, fotografa-los; a senhora visivelmente envergonhada XD

Tōdai-ji


Este é, possivelmente, o templo mais famoso de Nara e um dos mais conhecidos templos Budistas do Mundo. Dentro dele, encontra-se um Buda que é mesmo grande mas tudo a seu tempo. Uma coisa estranha a constatar era quão diferente era a atmosfera no caminho/estrada, cheia de pessoas a ir e vir do templo, crianças a correr e os ocasionais veados; e a atmosfera nos lados dela, com os seus ribeiros, plantas e lagos a gritarem, com o seu corpo, movimentos e presença, a palavra "serenidade". Talvez esta coisa do Budismo dê mesmo uma iluminação espiritual.

Dito isto, a quantidade de pessoas era imensa, pelo feriado e pelo festival da cidade e isso fazia com que a fauna japonesa e os respectivos todos os rituais fossem facilmente observados. Por exemplo, numa espécie de altar redondo pudia-se acender um pau de incenso; depois, “lava-se" a cabeça com os fumos que dele saiam, coisa que, acreditam os que o estavam a fazer, tornava o cérebro e, consequentemente, a pessoa, agora, “fumada”, mais inteligente. Eu apenas me queimei a colocar o incenso, não foi muito inteligente da minha parte XD (drryyyy~)


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Antes de entrar e, em boa verdade, também no caminho para o templo os guardiões olhavam, de cima para baixo para a multidão. Estas estátuas de madeira são lindíssimas e impressionantes. As suas faces tem uma expressividade que lembra tudo o que o Japão tem a oferecer de mais tradicional; e as posses em que encontram inspiram poder e temor: só vendo, I guess ^^,
Dentro de Todai-ji, a estátua magnífica e gigantesca de Buda, de quinze metros (só o olho tem um metro) ladeada de dois Budas mais pequenos, com apenas uns dez metros, dava uma tranquilidade inexplicável à multidão, ao templo e à atmosfera dentro deles. Cheios de ornamentos parecia um altar Budista normal (em que, em geral, não se pode tirar fotos) com ouro qb e as típicas estátuas de plantas e os simbolismos reminiscentes de uma certa zendade.


Por detrás dela, num dos cantos do templo o pilar com o famoso buraco, do tamanho da narina do dito, continha à sua espera uma fila enorme de crianças. Fica para a próxima a minha passagem lá pelo meio ^_^ Afinal, passar pelo dito, dá sorte.


À saída, a estátua assustadora, feita de madeira, de Pindola, um dos dezasseis mais famosos discípulos de Buda e mestre dos "poderes ocultos", que continha a promessa de curar a parte do corpo correspondente à parte dela que fosse tocada. Eu, por mim, toquei-lhe na cabeça, pelo menos é que o pessoal diz. No fim, fiz um amigo pequenino que se juntou a mim em serena contemplação dos campos do templo ~ sweet thing