Wednesday, 30 September 2009

O-sushi

Jantar de hoje: sushi e onigiri. Pela módica quantia de 275円! Isto dos preço terem até cinquenta por cento de desconto quando se aproxima a hora de fechar o supermercado e, consequentemente, o prazo de validade dos produtos para consumir no dia é das melhores ideias de sempre. ~ ureshii ~

Primeiros Koyo

Hoje, quando estava a dirigir-me para a universidade para as aulas da manhã, apanhei uma molha. Mas o que verdadeiramente marcou o dia foi a minha percepção de que está a começar o tempo das koyo, ou seja, as folhas vermelhas, castanhas, laranja e amarelas que começam a povoar as maravilhosas árvores nipónicas, que marca o início do momiji. Esta será a primeira época que vou ver começar aqui no Japão, depois de ter vindo para cá no meio da época dos omatsuris. É estranhamente tranquilizador e quase paradoxalmente nostálgico comprovar que a mudança das folhas é mesmo patente, talvez por uma percepção que, por estar longe, está mais atenta a tais fenómenos, tão normais e idílicos e, ao mesmo tempo, mágicos, misteriosos e oníricos, à medida que o tempo voa para a morte no nosso passado.

O-bento

Hoje, à hora do almoço, conheci uma japonesa, de nome infelizmente já esquecido que, em vez de ir comprar a sua comida à cantina, como fazem todos os ocidentais, tinha um bento. Trazido de casa, preparado, penso eu, pela mãe, todo arrumadinho numa caixa de plástico especialmente pensada para esse propósito tão desconhecido e alienígena à nossa cultura, em que nem faltava a caixinha para por os hashi. Mais uma vez, os animes, mangas e outros perfumes culturais que daqui partem, se assumem como um retrato mais fiel do que alguns esperariam. Desta vez é caso para dizer kawaii desu ne ~

Tuesday, 29 September 2009

Japonesas típicas?

Pensei em colocar este post juntamente com o anterior, mas acho que assim fica melhor. Qual é a ideia estereotipada de uma personagem feminina num anime com uma temática escolar? Tirando as tsundare e as ocasionais personagens principais o que temos são raparigas, representadas pela, por exemplo, Ryou, a Yuki-chan e a Mikuru-chan, que: tem medo de insectos e, se algum lhes chegar perto é provável que gritem e se afastem o mais possível numa reacção que parece quase encenada; encolhem-se todas na face do "perigo", por exemplo uma bola perdida a vir na sua direcção, mas não lhe saem do caminho; não tem força física nenhuma; quando falam dizem ne e, ao mesmo tempo, inclinam a cabeça para o lado; etc. Se a esta admitidamente estereotipada descrição acrescentarmos o ser tão magra que parecem estar a tocar não-tão-ao-de-leve na anorexia, e o ficar nas fotos em pose kawaii com uma ou ambas a mãos a fazer o V de victoria, temos uma descrição muitíssimo fiel de grande parte das raparigas do evento.
Cada vez mais, se forma na minha cabeça a ideia de que o Japão é um gigantesco anime-real, em que todas as pessoas têm um papel mais ou menos definido. Resta saber qual é que é o meu :D

Jogos de crianças

Eu, quando me meto em algo gosto de saber os porquês, os ondes, os quandos, os comos e os quems. E, se não os sei tenho uma boa razão para isso, sendo ela, muitas vezes, o reconhecimento de um padrão passado ou algo inerentemente interior. Isto quer dizer que, quando um japonês nos empurra para um pavilhão onde estão um monte de japoneses, chineses e coreanos, de ambos os sexos e com idades entre os vinte e os vinte e seis anos, eu vou querer saber algumas coisas. Infelizmente a barreira comunicacional, mesmo para as minhas acompanhantes era muito grande: mesmo que se saiba japonês, há conceitos que um nativo assume que, muitas vezes, não entra na cabeça de alguém que está aqui à menos de um mês. E, mesmo com as minhas incessantes perguntas, mesmo com algumas traduções, mesmo com as nossas só-que-ver-o-que-é-isto-e-mesmo-assim-nem-disso-tenho-a-certeza, mesmo sabendo que estávamos num pavilhão com umas cinquenta pessoas descalças e que tal podia vir a escalar para algo desagradável, não se conseguiu saber mais nada alem da palavra エベントウ, ou seja “evento”, o que convenhamos, não ajuda assim tanto.

Passado algum tempo em que, em vão, tentamos descortinar o mistério e, não tão em vão, travamos alguns conhecimentos com os presentes – não é surpreendente mas eles parecem tão interessados em nós, como nós por eles, para o bem e para o mal – e uma “apresentação”, à falta de melhor palavra, começou. O basicamente estávamos a assistir eram quatro raparigas e dois rapazes a fazer uma espécie de dança sincronizada, ao som de uma música adequada à tala actividade, que passava por vários tipos de coreografias – referencias a james bond, à kawaii culture e a comboios presentes – ligadas entre si por uma coreografia-refrão. Até ai tudo bem: meninas com tótós a saltar assustam um bocado mas nada que não se aguente. Depois, perante as nossas caras espantadas e mentes brancas, colocando em uso duas bolas cor-de-rosa super leves de dois metros de diâmetro, começaram a explicar um jogo à plateia que, também não o entendeu muito bem, mas com o qual parecia ter mais à vontade do que nós.
O jogo, como depois vim a comprovar era o seguinte. Primeiro faziam-se equipas e, dentro dessas equipas grupos de seis pessoas para jogar. Cada jogo era disputado com três destes grupos ao mesmo tempo e a ideia era fazer, com cinco das seis pessoas um suporte para a gigantesca bola enquanto a sexta gritava セート!(Set!) … OMNIKIN! (que não é mais do que o que estava escrito bolas gigantes) e, depois, gritava-se o nome da equipa que tinha de apanhar a bola e repetir o processo. Caso a bola caísse no chão a equipa perdia um ponto, embora eu não tenha entendido a classificação. Eu, obviamente disse que ficava só a ver e depois de um jogo de jan-ken-pon em que não entendi de perdi ou ganhei, também obviamente, pois os japoneses, aparentemente, têm uma capacidade fantástica de persuasão não-assertiva que ainda vou ter de apreender, fiz parte da primeira equipa de seis no primeiro jogo que se fez. Não vou negar que foi engraçado e, embora tenha tido o odor dos tempos de educação física, foi uma experiência "interessante". ^_^

No entanto, ainda nada sabíamos quem organizou o evento ou porque o organizou, sendo esta última pergunta respondida aquando do segundo jogo em que fiquei no banco (chão, na verdade). E a resposta, e eu cito, é muitíssimo simples: “fazer amigos”. Sim, é verdade: os japoneses, depois de um dia de aulas estafante, pois o “evento” começou por volta das quatro da tarde, vão para um ginásio jogar jogos que lembram a infância que todos já perdemos para “fazer amigos” e conhecer pessoas. Isto deixou-me extraordinariamente apreensivo e dentro dos meus pensamentos e correlações. Eu já tinha ouvido falar na infantilidade da mente e sociedade japonesa, mas isto é um bocadinho mais do que eu estava à espera! No entanto, os resultados são fantásticos e depois do jogo terminar o clima era leve e os conhecimentos eram muitos, mesmo não entendendo quase nada de japonês. Talvez a nossa sociedade obcecada com a responsabilidade e peso da vida adulta possa apreender algo com isto, ou talvez, dentro de cinquenta anos já não haja japoneses que consigam pensar além da idade mental de quinze anos. Seja como for, foi fantástico a descoberta de tal prática e um privilégio experimentar em primeira mão algo de tão íntimo, secreto e, de uma certa maneira, até mágico. Depois de desenvolver esta e aquela conversa e ver esta e aquela situação mais ou menos caricata, fez-se outra coisa, para mim mais do que cru, áspero, chocante, bárbaro e desumano: uma dança de roda em que se simulou a dança apresentada no início. No comments on this are to be made.

Depois, foi toda a gente jantar yakisoba, feita pelos organizadores que, finalmente se conhecem: associação de estudantes, não do departamento, mas de toda a universidade. Comparações com a AAC são ridículas: estes daqui com toda a mentalidade infantil, estão num nível organizacional e proactivo muito mais à frente. Alias, para comprovar esta dicotomia, que ainda não entendo, entre a mente criança-adulta ou adulto-criança, basta ver a conversa que tive com a cozinheira-mor, alguém que cozinha para mais de cinquenta pessoas numa sala com espaço muito limitado e que, depois de falar uns cinco minutos comigo, me pergunta, como se na terceira classe estivessemos, “Vamos ser amigos?”. Zenzen wakaranai… ~
O dia termina comigo a ir buscar as fotos do evento ao computador da associação e a falar com uma rapariga do curso de português que faz parte da organização. O meu japonês era pouco pior que o português dela e, por isso, a conversa não foi muito longe; no entanto, a informação de que tal evento e a respectiva propaganda, se faz todos os dias foi-me transmitida: é mesmo caso para dizer zenzen wakaranai! (não entendo nada!)


Aula chocante

O meu horário é bastante pobre, tendo aulas todas as manhãs e apenas duas aulas à tarde durante a toda a semana e, estando eu apenas aqui um anito, resolvi ir ver como eram as aulas da tarde. A este ponto, uma explicação é necessária. As aulas da manha fazem parte de um curso especial, intensivo e, particularmente para a mente japonesa, bastante hardcore, dado a todos os alunos que estão na Universidade de Tenri durante o espaço curto de um ano. As aulas da tarde são aulas, pelo contrario, são mais especificas – leitura, escrita, kanji, gramática, etc. – sendo dadas aos alunos do curso de quatro anos e que nós, estudantes estrangeiros, podemos, se tivermos conhecimento, paciência e coragem, assistir. O problema aqui é que o sistema escolar japonês começa os anos no semestre de primavera que começa em Abril, ou seja, o segundo semestre deles é o nosso primeiro. E isto quer dizer que, infelizmente, as aulas da tarde mais básicas a que posso assistir são do segundo semestre de um curso de quatro anos. E, neste momento, as mentes assertivas dos meus leitores já começam a ver o problema: são aulas que assumem que temos um semestre intensivo de japonês na universidade de Tenri, coisa que eu, obviamente não tenho, embora - mea culpa - um semestre intensivo aqui é mais ou menos, mais mais do que menos na verdade, equivalente aos dois anos que estive a estudar japonês. De qualquer maneira, fui tentar a aula, ideia que me foi guiada até à mente consciente por uma alemã que conheci.

Claro que as coisas tem de ter alguns percalços e, mente ingénua a minha, essa alemã não ia para uma aula do segundo semestre do curso de quatro anos, mas sim, para uma aula do quarto semestre. Isto faz sentido para ela, uma aluna no quarto ano (?) de um curso de língua japonesa na Alemanha mas dificilmente fará sentido para mim. Não obstante, depois de descobrir tais factos, resolvi ficar por lá, lembrando-me da máxima do protagonista de um anime por muitos já esquecido: benkyou! benkyou! benkyou! benkyou! benkyou! benkyou! benkyou!
Da aula em si não entendi nada, sendo-me explicado depois, que era uma aula de conversação (?) e o tema desta era “o que torna o teu pais especial”, ou seja, pano (e papel, se me é permitida o anedótico comentário) para mangas. Mas a atmosfera desta chocou-me. A aula, sendo de japonês, só tinha alunos estrangeiros, muitos deles, como será meio óbvio após uma rápida analise geográfica, chineses, coreanos e tailandeses. E eu não quero estar a dar uma ideia errada de tais simpáticas, pelos exemplos que tenho tido, pessoas, mas aquela aula foi a coisa mais desrespeitosa que vi desde… bem, desde sempre. Mais do que ser um defeito da professora, uma senhora japonesa com os seus quarenta anos, muito magra e pequenina, e com uma paciência de santo, o pessoas asiático que lá estava comportar-se-ia melhor num café: falavam por cima da professora mesmo quando ela estava ao pé das mesas deles, ignoravam-na como se ela não estivesse lá em contraponto com as tentativas de chamadas de atenção dela, viravam-se para trás a toda a ocasião e falavam mais do que eu alguma vez os vi falar fora dessa aula. Um deles, caso raro e famoso por cá, até estava a dormir e, quando a professora o acordou batendo ao de leve na sua carteira, ele apenas levantou a cabeça, que se encontrava metida nos seus braços, olhou para ela e, numa atitude que todos os professores que conheço achariam provocatória, voltou a por a cabeça na posição em que estava antes. Completamente do outro mundo! Eu nem quero imaginar como é que serão as universidades chinesas e, em contraponto, deixo-vos a pensar como é que foi a atitude da alemã, habituada, no seu país, à ordem, respeito e rigidez que caracteriza, como ela mesmo o disse na dita aula, o motor da Europa. É que se eu estava chocado mas meio confortável e até divertido com a situação, ela estava chocada e prestes a levantar-se e a manda-los, verbalmente, para a outra parte chinesa (^^,)

3ª: rápida e repetitiva

Hoje, segunda-feira, a professora habitual não vem e, como substituição, temos o, talvez, ilustre professor Mikita, as in みきた先生. Não há assim tantas diferenças entre os dois, pois o método de ensino está mais ou menos definido, mas creio que este é muito, mas mesmo muito, acelerado. Nas últimas aulas o que verdadeiramente se faz é ouvir padrões frásicos simples e repeti-los ad nauseum para os nossos ouvidos, mentes e pensamentos se habituarem a reconhece-los sem grande esforço, o que, de momento não acontece. Eu entendo isso e creio que é uma boa estratégia, afinal basta ver como, de forma totalmente inconsciente, se decoram letras e ritmos de músicas que ouvimos várias vezes. No entanto, até eu acho que repetir umas sete vezes um dado exercício em colectivo e uma vez para casa um dos nove alunos presentes é um bocado exagerado.

Deixo, para deleite dos que se interessam por estas coisas, um exemplo, daqueles que eu repeti um monte de vezes na aula:

それはさいふすか。
はい、これはさいふです。
これもさいふですか。
いいえ、それはさいふではありません。
それでは、これはなんですか。
それはかばんです。

Deixo, também, desta vez para as vossas imaginações, o porquê de alguém confundir uma carteira com uma mala :)

Monday, 28 September 2009

Pizza japonesa

Tudo bem, tudo bem, eu confesso: foi cara! Não ridiculamente cara, mas, mesmo com o desconto, cara. De qualquer maneira, pizza japonesa feita no Japão por japoneses é um must-have não tradicional para quem vem cá. Primeiro, é a coisa mais parecida com pão que se arranja. Depois é mesmo estranho, deliciosamente estranho, sentir o sabor normal da comida japonesa, por exemplo molho de soja e vários paladares facilmente associados a restaurantes chineses em Portugal, dentro de uma pizza com os sabores normais de uma pizza, tipo o queijo derretido, o molho de tomate e a massa. E eu sei que a descrição pode parece não muito boa e os sabores pouco associáveis, mas ~ yumeee~e! :D

Sunday, 27 September 2009

お母さん

Meio envergonhada, como estaríamos habituados de uma japonesa dessa idade, com roupas casuais e sem estar, na mente japonesa, minimamente preparada para sair ou mostrar-se em público. No entanto ficou agradecida e visivelmente emocionada com a nossa missão e, quem sabe, simpatia.

Duvido que alguma vez esqueça a situação, pela estranheza dela e pela rara proximidade nipónica a que fui sujeito neste quente sábado no meio do Japão :)

Tenrikyo tsukinamisai

Muitos não devem saber mas Tenri é uma cidade religiosa. Mais do que isso, pode ser considerada a cidade religiosa, semelhante ao Vaticano e a Meca, por todos os que seguem a religião Tenrikyo, ou caminho de lógica divina. Esta foi criada a vinte e seis de Outubro de mil oitocentos e trinta e oito, após uma revelação divina à mulher que viria a ser chamada de Oyasama.
Ainda não aprofundei esta religião mas à coisas que acho engraçadas na sua concepção. Para já, meio obviamente, tem uma plenitude de "inspirações" budistas e xintoístas, como pode ser verificado pelos visuais dos seus praticantes, pelo uso de gagaku e gagaku-like music nas suas cerimónias, e pelos seus templos e altares. É uma religião monoteísta e uma das três únicas no mundo (adivinhem quais são as outras duas) que foi formada depois de um momento de inspiração divina e a maior que teve como fundador uma mulher. É tanto uma religião como um conjunto de práticas e ensinamentos e, sendo assim, proíbe pouco ou nada aos seus seguidores, incluindo o acreditarem em outras fontes divinas e/ou religiões. O seu centro, pelo que entendi, está na formação de um "mundo feliz" que se pode atingir através de um processo de melhoramento da alma, entre reencarnações, pela ajuda ao próximo, a reflexão interior e à construção pessoal e social. Isto, pelo que tenho visto faz muito sentido e encaixa na perfeição no modo japonês de viver a vida e de ver a religião.

Hoje, dia vinte e seis de Setembro, é dia de uma celebração mensal, o, como o nome do post diz, tsukinamisai, que neste mesmo dia se faz, de modo a celebrar o nascimento da religião e, embora não seja um seguidor nem me seja particularmente agradável acordar às oito da manha para ir ver rituais de religiões estranhas, a curiosidade e interesse levaram a melhor e venceram o conforto dos lençóis.
Obviamente, eu já tinha visto o templo de fora, mas o impacto que este tem quando está recheado, para mim surpreendentemente recheado, de pessoas de todas as idades é incrível. Mais do que isso, dentro do templo não há nada mais do que um espaço amplo, muito amplo, com ocasionais colunas de madeira entre os tatamis que o cobriam completamente, um espaço para as leituras e música, com muitos instrumentos tradicionais japoneses, como o hyoshigis, o tsuzumis, dois taikos dourados enormes e decorados com um símbolo negro do muito parecido com o sharingan e já falados shamisens, que lhe davam um ar igual ao que polvilha a imaginação de quem sonha com o Japão, e, por fim, uma zona descida uns cinco metros onde se encontravam as oferendas para Oyasama, entre aos quais montes de comida com excelente aspecto.
À medida que se aproximavam as nove horas, onde começam as celebrações, o vasto templo começou a encher e, a dada altura, quando olhei para trás, estava cheio. Isso também me surpreendeu, não exactamente pela quantidade de pessoas mas pela atmosfera que delas emanava. Parecia mais uma saída muito alargada a um evento lúdico do que a ida a qualquer igreja cristã em que tenha estado: exactamente como uma religião deve ser (suponho eu).

O ritual, ou missa, ou evento, ou celebração, teve início às nove com a entrada de Shimbashira-sama, que é o equivalente ao Papa na religião católica. Este trazia consigo umas quantas pessoas que, respeitosamente se sentaram atrás dele. Nesta altura, todas as pessoas que estavam no massivo templo estavam sentadas pois, aparentemente, é proibido estar de pé e isso dificultou muito a visualização de uma das partes mais interessantes da cerimónia. Dez pessoas, vestidas a rigor, vão para o zona mais descida, descendo em sincronismo de todos os lados da mesma, onde se encontram as oferendas e, depois colocam, secretamente, as máscaras simbolizando as dez providencias que Deus deu à humanidade. Depois disso, seguiu-se um pequeno discurso de Shimbashira-sama, lido de um pergaminho, de cima para baixo e da direita para esquerda, como manda a língua e a tradição. Aquando do termino deste e, se a memória não me falha, também no seu início, todas as pessoas do templo se colocaram na posição, sentada, de respeito – com as pernas debaixo das cochas – e num uníssono perfeito, como se tivesse sido ensaiado, batem quatro vezes palmas, resultando numa poderosíssima manifestação de união. Foi a primeira vez, de várias, em que eu pensei “Chiça! Isto parece uma religião. Mas … isto /É uma religião”.

Depois, Shimbashira-sama levantou-se e andou à volta da zona de oferendas, tendo vénias dos presentes enquanto passava – assustador! :) – e sentando-se na sua borda deu o sinal invisível para o prato forte do dia começar: as danças. Como disse, a Tenrikyo acredita que houve dez providências que nos foram dadas por Deus. Tais são representadas por uma capacidade do homem, uma providência para o mundo, um animal, um ponto do céu estrelado, uma canção, uma dança e, quem sabe, outra simbologia que me escapa. As danças e as canções, cantadas em japonês, muito parecidas entre si, mas, em vários pormenores percepcionados pelo olho atento, distintas foram criadas por Oyasama e são acompanhados por um estilo musical, também, criado por ela para esse efeito. A música que dai resulta - Mikagura-Uta – é imersiva e quase hipnótica, tendo muito da aura do gagaku e a coreográfia lembra katas de uma arte marcial dançada, totalmente não violenta, que, por vezes, até leques usa. Digo "por vezes" pois, como nem tudo são rosas, e sendo esta cerimonia o tsukinamisai, as dez danças foram efectuadas… o que demorou mais de duas horas! Embora se entre facilmente em transe e,embora música nos funda com os nossos pensamentos, o tempo e o conforto reduzido dos tatamis fazem a experiência ser um tanto longa de mais.
Nesta altura, mesmo os mais devotos fiéis, quer dizer, esses não, porque estavam a dançar
no seu lugar, para eles mesmos, cada uma das danças, mas todos os outros, se permitiam a uma certa descontracção distraia, fora a ocasional prece de mãos em certas alturas das canções. Por esta altura uma simpática senhora, com os seus quarenta e muitos anos, meteu, através de um papel escrito em inglês macarrónico, conversa comigo: perguntando-me o nome, qual a minha igreja (lol) e o que estava eu a fazer ali, entre outras coisas. Nunca pensei que estabelecer conversas com pessoas desconhecidas, no meio de um ritual religioso do outro lado do mundo fosse tão fácil mas, não obstante essa, que correu bastante bem e acabou com uma oferenda de omiagi - na foto, salgados japoneses cujo sabor variava entre o peixe e o puro sal, não é a melhor coisa de sempre :s - da parte da simpática senhora, logo a seguir um senhor nos seus cinquenta, provavelmente inspirado, mete também conversa. E o melhor disso é que, vá eu a Himeji ou Tokyo, aparentemente, já tenho quem me faça de cicerone :)

Depois das longas danças terminarem, com umas sonoras quatro palmas da parte de toda a gente, um dos sacerdotes fez um discurso, em japonês, do qual eu só entendi, por ironia do destino, a palavra “wakaranai” - não entendo - e quatro outras mais. Por fim, mais quatro palmas e a longa cerimónia terminou. Mas o que se seguiu é que verdadeiramente me chocou. Mesmo depois das quase três horas e meia, mais de metade das pessoas continuaram dentro do enorme templo, a rezarem ou fazerem a versão sentada das danças. Além disso a quantidade de gente que estava, muito depois do fim, sentada nas soleiras das portas, nas escadas e no próprio templo, simplesmente a falar é, no mínimo, surpreendente. Como se o templo se tivesse transformado num café ou num espaço lúdico de convívio ou um local de um qualquer evento de confraternização, conhecimento, empatia e partilha, tal como a aura do início da ceremonia apontava A religião pode ser estranha, ter máscaras, ter duas horas de danças, ter tudo em japonês, mas lá que se aproxima mais do meu conceito de religião do que qualquer religião que tenha visto em Portugal, lá isso aproxima.


Obviamente não é permitido tirar fotos à cerimónia em si ~ zannen desu ne


Saturday, 26 September 2009

Meiji chokoreeto

Pelo que se diz o mais famoso chocolate normal do Japão. É bom, mas não bate os que há por ai ~ ^.^

Outra vez nos correios

Ora, por razões que não quero enumerar tive ir de novo aos correios, os mesmo que têm uma não muito boa história com a minha pessoa, e, desta vez, tive de ir sozinho. E ainda bem que os japoneses são simpáticos! Houve de tudo, deste ter de perguntar como é que eram alguns katakanas - ク、メ、モ、ダ - do meu nome completo, ter de usar um dicionário japonês-inglês para sair de um impasse comunicacional, e mesmo ter de ser atendido, à vez, por quase metade das pessoas que estavam a fazer atendimentos, não fosse alguma desenrascar-se melhor no inglês (o que não aconteceu). Alas, no fim tinha mais uma experiência e o payback, talvez não muito justo, pela última vez. :)

Segundo dia de aulas

Acordou-se demasiado cedo, quando se tinha deitado demasiado tarde; esteve-se duzentos e dez minutos dentro da sala de aula onde a matéria avançava de forma muito rápida, repetitiva e exercitada e onde, ao mesmo tempo, o sono pesava e a cabeça latejava; perdeu-se a chave da bicicleta; tenta-se, em vão, encontrar a chave da bicicleta; foi-se a pé para casa; encontrou-se a chave da bicicleta; foi-se a pé buscar a bicicleta;volta-se para casa; faz-se uma taça de ramen instantâneo; prepara-se e planeia-se a tarde que, pelo que parece, vai ser agitada, confusa, abafada e cheia. Por fim, enquanto se come, escreve-se umas coisas para o blog que, de momento, está a ler.

Friday, 25 September 2009

Toki o kakeru shōjo

Depois da aula introdutória ao que será a melhor cadeira de sempre fiquei com muita vontade de ver um anime qualquer e, por recomendações passadas, foi este o escolhido. Muito muito muito bom, com uma animação, fluidez e montes de ideias fantásticas e, como seria de esperar, uma história que diz algo a toda a gente.

O que é que fariam se pudessem viajar no tempo? O que é que fariam se começassem a sentir o preço carmico de tal privilégio? De que fugiriam se a vida a tal vos obrigasse e como lidariam com os arrependimentos extraídos do acto de viver?

Primeiro dia de aulas

Primeiro dia de aulas no Japão. E que dia! É certo que se conheceram-se algumas pessoas que, pelo que parece, me vão acompanhar durante os próximos longos dias de japonês, mas o que foi verdadeiramente surpreendente, novo e estimulante foram mesmo as aulas.
Começando às nove da manha e com o seu término ao meio dia e meia, foi o equivalente ao tempo de uma semana inteira de japonês em Coimbra. A aula começa fulminantemente com o hiragana que é dado em pouco mais de quarenta e cinco minutos, para horror da menina de Puerto Rico para a qual aquela foi a primeira aula de japonês de sempre. Aqui, ainda deu para aperfeiçoar a escrita com um exercício simples e denotar e/ou relembrar como é que se desenha correctamente o れ, わ, を, そ e etc. O hiragana em si foi ainda completo com vocabulário simples para treinar a leitura, matando dois coelhos com uma cajadada. Depois e sempre com uma velocidade rápida, na qual spacing out é mortal, sempre a contrastar com a velocidade lenta da fala da sensei – uff – começamos a lição um. Nesta, viu-se a as formar das frases normais positiva - です - e negativa - ではありません (sim com essa formalidade toda); o fazer perguntas simples - か - e as respectivas respostas - はい e いいえ; o dizer que somos estudantes, de uma dada nacionalidade, confirmar a nossa identidade e o dizer, e perguntar, se algo é isto ou aquilo. E ainda ouve tempo para a clássica pergunta do わ e da partícula は e para ver alguns kanji esquecidos no baú. A aulas, tendo apenas dez pessoas, tem uma dinâmica muito boa, sendo recheada de perguntas, respostas, fala e dialogo.
E desse modo terminou a primeira lição cujos exercícios, ouvir um CD (já feito!), foram para trabalho de casa. Claro que, não tendo acabado as três horas, começamos, com menos de trinta segundos de pausa, a lição dois. Esta, por enquanto, pois não a acabamos, tem o isto - これ - o aquilo - それ - e o também - も. E, claro está, uma quantidade enorme de vocabulário, felizmente recorrentemente relembrado durante o resto da aula.
No fim a ideia que ficou é que a aula é mais fácil do que seria de esperar, até porque à lá pessoas que nunca tiveram japonês nenhum mas que, pela sua duração e dificuldade de habituação e descodificação da língua é extraordinariamente cansativa. No fim, tinha a cabeça a latejar. O que, felizmente para mim, também foi partilhado com outros

Depois do almoça na cantina e de mais uns conhecimentos cruzados foi tempo da aula da tarde, dada em inglês, que se intitula Japonese Culture and Society. A aula, pelo seu nome, parece ser fantástica e tal foi exponencializado quando o professor – homem grande de olhos azuis e completamente fora deste mundo – disse que e eu cito, “The contento f this class is anime… well, anime and manga actually”. É verdade, a aula é sobre anime e manga. Esperem, esperem, deixai-me reconfirmar: uma AULA do ensino SUPERIOR sobre ANIME e MANGA. muhahahahaha!
Além do professor, parecer ser um grande fã de anime, de ser muitíssimo simpático e estar permanentemente a mandar piadas (You may find it hard to believe, I find it hard to believe myself, but there are people that don’t like anime! So, if this hasn't what you were expecting, you're free to leave) o clima da aula é suave, tranquilo e despreocupado como só uma aula sobre algo tão lúdico pode ser. O programa será focado na história da animação japonesa, os seus géneros e como funciona o influencia e deixa-se influencia global do anime de hoje em dia. Em cada aula vemos um excerto de um dado anime e discutimos, com base num texto, o que houver para discutir. Mal posso esperar pela aula dedicada ao Evangelion. Em suma, será uma das melhores cadeiras de sempre!

Taihen desu ne ~

PS: não é estranho o professor dizer que, já por duas vezes, um aluno que saiu da sala dele sem dizer nada, teve um ataque de epilepsia assim que saiu pela porta? hihi

Monday, 21 September 2009

Tsukemono

Provavelmente, a frase mais repetida neste blog é “os japoneses são estranhos” ou uma qualquer variação da mesma. E isso, mais uma vez, confirma-se.
Aquando de provar os ditos doces de azuki, numa casa tradicional de japoneses, também me foi oferecido três variedades de tsukemono. Estas preciosidades são algo que os japoneses comem enquanto comem o que eles costumam comer, ou seja, são acompanhamentos. Estes três que provei (um deles o famoso umeboshi) eram numa palavra, horríveis, maus, detestáveis, intragáveis: lembravam a comida francesa e isso, para quem me conhece, diz tudo. Mesmo tendo em conta que são acompanhamentos, mesmo tendo em conta que se devem comer acompanhados com algo, mesmo tendo em conta que são para comer em pouquíssimas quantidades, mesmo tendo em conta que são caríssimos e considerados uma delicatessen … são mesmo maus.

Azuki sweets

Talvez tenham ouvido falar, aqui ou noutros sítios, que esta semana que está a terminar é uma semana com três feriados seguidos por razões que ainda não consegui aferir. O que sei é que, durante esta semana, se comem os doces especiais desta semana. Foram exactamente esses doces que tive o "prazer" de provar. O problema é que são maus. Devo estar mal habituado com a soberba, variada e completamente comer-e-chorar-por-mais doçaria portuguesa, pois quase todos os doces que aqui provei são meio mauzitos. Uma das razões para isso é a falta de imaginação que eles têm. Todos os doces têm ou uma pasta doce feita de arroz ou uma pasta doce feita de feijões azuki lá dentro que, infelizmente para nós-os-que-achamos-que-feijão-não-fica-bem-em-doces, sabe a feijão.
Estes não eram excepção e, fora a cobertura amarela que sabia a amendoim, não são coisa que recomende.


Saturday, 19 September 2009

Okuribito

E porque estar por cá também significa ver o que se faz por cá. Recomendo esta pérola a todas as pessoas que acham que oferecer uma pedra a quem gostamos pode ser uma boa coisa a fazer, e às outras, que pensam que a morte não tem qualquer tipo de ligação com a vida.

Choque cultural (四)

O momento da despedida. Esse momento que, tantas vezes, se perde na memória, ofuscado pelo que se passou antes. A despedida depois de um jantar, um almoço, um café, uma passear pelo parque, um visitar um castelo ou um dia de escola. Essa despedida, que para nós (ou para mim, já nem sei) é um momento adiado até à última, de modo a desfrutar o máximo do tempo que temos com as pessoas que, caso o destino assim o decida não vamos ver mais, é, para os japoneses, um momento quase ignorado e, por isso mesmo, não há a mínima atenção nele. Eu posso estar enganado e ter tido azar nas minhas observações de situações, pessoas e grupos, mas é o que parece. Amigas de escola, nos seus já famosos uniformes despedem-se uma rua acima só porque uma corta, passados cinquenta metros, numa outra direcção. Depois de um dia cansativo passados juntos um “adeus, tenho de ir”, com a adição da quase automática vénia, fizeram as despedidas sem mais cerimonias e, como desconhecidos, cada um segue o seu caminho.
É prático? Claro que sim. É saudável? Provavelmente não, feito de forma tão institucionalizada e robótica na mente japonesa. Mostra algo sobre esta cultura? Claro que sim! Resta saber exactamente o quê.

É chinês

No Japão não se conhece só japoneses e, por vezes outras culturas são permeadas pela nossa mente (ou vice versa). Uma dessas culturas é a chinesa, sobre a qual falo hoje.
A cultura chinesa é de onde vêm os kanji, os verdadeiros inimigos de quem está a apreender japonês e os melhores amigos de quem quer uma comunicação simbólica e uma agregação de significado a ideia e não a som. Sendo assim, os chineses, ajudados pelos kanji, conseguem, sem dificuldade ter várias coisas entro da língua que para nós seria muito complicado. Uma delas é a entoação. Todos já ouvimos chineses a falar e sabemos ou denotamos que eles têm muitos altos e baixos quando dizem palavras e frases. Uma das razões é porque a própria entoação com que se diz a palavra pode mudar o seu significado, independente do contexto usado, embora este (também) tenha um papel muito forte. Isso quer dizer que, e isto é surpreendentemente verdade, dizer “má” com entoações diferentes pode querer dizer mãe, cavalo, especiaria e zangado: ao dizer má má má má estamos, ou pudemos estar, simplesmente a enumerar essas palavras.

Weird as hell, hun?

Friday, 18 September 2009

Taiyaki

Como é sabido, todos (?) os países tem a sua gastronomia e os seus doces. O Japão não é excepção. Ontem, dia dezassete aquando da visita a um templo aqui perto, passamos, guiados por uma japonesa conhecedoras das melhores andanças daqui, pela loja onde se vendia 日本一たい焼, ou seja “Os melhores taiyakis do Japão”, onde tal slogan enchia o ar com uma irresistivelmente irritante música a repetir isso mesmo de dez em dez degundos. O que são taiyaki? É um bolo com a forma de um peixe que tem um creme de azuki lá dentro. E o que é azuki? Alem de ser um nome relativamente usado nestas bandas, é um feijão doce muito famoso e usado (até demais, pelo que parece) por aqui. Imaginem feijão de feijoada com açúcar, numa massa tipo panquecas com a forma de um peixe e ficam com uma ideia muito boa do que é.

Cá para mim, não é a melhor escolha de ingredientes para fazer um bolo... mesmo sendo os melhores do Japão.

O templo, o demónio e a menina


É sabido que o Japão esta coberto de tempos. As religiões predominantes aqui: xintoísta e budista assim o ditam. Deste modo, não é difícil talvez exagerando um bocadinho, encontrar um templo novo em cada meia dúzia de quilómetros. Este, de onde volto, está a oito quilómetros de Tenri e é lindíssimo.


Construído à volta dos campos onde, em tempos idos, se encontrou o primeiro templo do Japão tem tudo aquilo que o nosso imaginário espera encontrar de um templo. Em seu redor florestas do que serão sakuras e bambus altos como todos os bambus devem ser. Todos os sinais e avisos estão cobertos por telhados triangulares tradicionalmente trabalhados. As luzes, que quando a noite espreita e fica iluminam o caminho até ao primeiro edifício onde o altar de kami-sama está, estão escondidas em casinhas, como se fossem pirilampos num mundo pequenino e transparente. O templo em si, e os vários edifícios que o compõem, é de madeira trabalhada, cheia de pormenores e adereços em papel, ferro ou ouro. As oferendas e pedidos ondulam no vento presos ao templo e aos seus deuses pelo papel ou a madeira em que estão esculpidos. Os caminhos cobertos de pedrinhas brancas que, segundo tradições antigas representam a água que purifica o corpo e a mente. E as árvores individuais estão, como já é habitual aqui, trabalhadas com um carinho que se vê. Por fim, o altar (ou os altares, pois há vários: um para cada deus) é decorado e despretensioso, solene e humilde, simples e rico, num jogo perfeito, impossível no ocidente, onde se junta franqueza, humanismo, esoterismo e religião.

Subindo os caminhos dignos de delírios oníricos temos a paisagem avassaladora do céu, com o seu sol escondido atrás de nuvens brancas, da montanha que suavemente nos abraça e da cidade, vila e aldeia que se estende com ambiguidade entre os campos de arroz e as montanhas no horizonte.



* * *


Na foto, lá está ele: jeans, camisola azul clara, de frente do altar principal, num gesto que, pela fotografia, poderia parecer uma bênção. Esse homem, durante os longos minutos de visita a essa clareira do templo e mais, esteve nesse local mexendo-se desconfortavelmente, andando um bocadinho para a frente e recuando logo de seguida, mexendo os braços lentamente em direcção à cara e ao tronco, controlados mas incoerentes nos seus movimentos. Dir-se-ia estar a debater com ele mesmo se se aproximava do templo à sua frente ou se fugia do mesmo o mais depressa possível. Há quem diga que as drogas poderiam dar-lhe momentaneamente esse comportamento invulgar, eu quero e prefiro pensar que é apenas uma alma atormentada pela vida e, talvez, por um passado maldito a tentar decidir se merece ser liberto da sua condição de condenado a ele mesmo.



* * *


Como sei muito bem, graças à quantidade relativamente avantajada de irmãos e irmãs que tenho, as crianças, com a curiosidade à flor da pele e as inibições sociais ainda por desenvolver podem ser, por vezes, quando confrontadas com situações novas ou inesperadas, podem ser uma mistura de chatas e engraçadas mediante o nosso estado de espírito de momento. Se, para nós que vimos de longe, ver uma /Elegant Gothic Lolita, é suficiente para queremos tirar uma foto, para uma menina japonesa com uns seis ou sete anos, ver alguém alto, totalmente vestido de preto e cabelos compridos é o suficiente para fazer o mesmo. E isso, nos maravilhosos tempos de hoje em dia, torna-se possível com o uso de telemóveis. Foi uma menina dessas que me acompanhou durante algum tempo durante a minha viagem pelo templo, tirando fotos a toda a oportunidade e fugindo assim que se sentia observada. Aquando do meu isolamento lá me perguntou, traquinas e curiosa, se a minha pessoa era rapaz ou rapariga. Eu lá lhe expliquei, num japonês com o maior nível de macarrónice existente, que era rapaz e que, de onde eu vinha, há rapazes que têm nagai kami (cabelo comprido).


* * *


Um dos deuses que tinha um altar, em tons de vermelho e branco, com guizos gigantes como enfeites, neste templo, é o deus do estudo. Esse, era atingível subindo, com algum esforço que servia de metáfora para o próprio estudo, umas escadas de madeira e pedra ladeadas por uma floresta de bambus. Eu, como é não-tão-óbvio, dei-lhe uma moeda e, fazendo o simples ritual de fechar os olhos de mãos juntas em prece, bate-las duas vezes e pedir um desejo: que me safa bem no ano escolar que se adivinha.



Thursday, 17 September 2009

Takoyaki

O outro dia havia no supermercado uma máquina de fazer takoyaki à venda por um preço exorbitantemente baixo e, tendo eu experimentado a delicatessen em Osaka, numa barraca de rua onde a simpática vendedora gritava, de sete em sete segundos algo como, irashai dozo takoyaki, não resisti em comprar a dita máquina. Hoje foi o dia de experimenta-la e foi uma aventura.
Takoyaki são bolas de uma massa feita com ovos, dashi, um condimento muito usado por aqui e farinha, com polvo (tako), vegetais e condimentos lá dentro, que, depois, são regadas com um molho especial. Ora, se fazer a massa e picar os vegetais pode ser trabalhoso mas não impossível, o mesmo não se poderá dizer da formatação das ditas bolas com o polvo lá dentro. Teoricamente coloca-se a massa nas formas da máquina, coloca-se o polvo lá dentro e vira-se. Na prática, quando tentamos virar a bola ou a massa que ficou fora das formas já está pouco maleável e teima em não ficar redonda, ou a bola se desfaz pois ainda está liquida, ou o polvo resvala para fora, ou começa-se tudo a queimar, ou o diabo...

Se bem que, no final do dia, tudo ficou compensado: takoyaki é tãããoo bom!

Choque cultural (三)

Para nós, os japoneses são estranhos. Isso já se sabia, mas esta é das diferenças que, suponho eu, mais mostra e derrama luz sobre a psicologia da mente japonesa. Como eu não entendo essa mente e vejo somente os sintomas vou tentar descrever os factos e, talvez, mais tarde, quando souber mais, esclareça, também a mim mesmo, o que se passa nos cérebros japoneses.
Os japoneses, fora de um grupo social em que se sentem à vontade, falam pouco e isso é muito patente em situações como, por exemplo, a de estar à espera que alguém desimpeça a passagem que, por uma causalidade qualquer, ocupou. Ou seja, se a nossa bicicleta está, glutona, a bloquear a passagem por estarmos distraídos à espera que o sinal mude, um japonês, tipicamente, não pede para passar ou nos chama a atenção: simplesmente fica parado, respeitosamente esperando que nós, infractores, reparemos no mal que estamos a fazer e, como elementos da sociedade, o corrijamos, chegando a bicicleta para frente de modo a permitir a passagem. Tudo isto sem haver nenhuma comunicação sem ser a presencial, pois essa não se pode, normalmente, por muito que queiramos, ser desligada.
Esta telepatia, em que cada um faz o que sabe que deve fazer de modo a não perturbar ou causar conflito com outros está profundamente enraizada na mente japonesa e mesmo na asiática. Sem ser preciso ninguém dizer nada, ou melhor, tendo em atenção que ninguém vai dizer nada, há um cuidado, que quase se poderia chamar esforço, para não perturbar ninguém, mesmo que tal tenha uma justificação plausível, pelo menos nas sociedades ocidentais. Resta saber o porque de tal inibição comunicacional e onde é que esta peça encaixa no puzzle que é esta cultura.

Sabia que ...

... Um hambúrguer é mais caro que um onigiri? E também é umas quantas vezes pior :)

Proibido estacionar

À porta de uma loja dos trezentos, alias, dos hyaku (cem) ien. O sinal, no chão, que diz que não é permitido estacionar ali as bicicletas, está coberto pelas mesmas. Afinal não somos só nós ~

Wednesday, 16 September 2009

Aeon e ... lojas

Aeon, como os mais atentos já sabiam, é o nome do maior supermercado da zona. Mas o que o torna interessante não é a quantidade de artigos disponíveis, nem a variedade dos mesmos, o que, só por si, merecia um ou vários posts. (Talvez um dia ^^) É sim, ou melhor, são sim as lojas. Por alguma coisa estranha o supermercado em si, e não o espaço que ele ocupa, tem loja lá dentro. O que não quer dizer que estas tenham paredes ou separações que as diferenciem dele. O que, por sua vez, não quer dizer que não sejam espaços independentes com um sistema logistico, organização e productos próprios. É como ter a Bertrand dentro do continente a vender livros com uma caixa registadora própria, mas sem nada a separar do contiente em si.
E não há só uma loja de produtos esotéricos e estranhos - sim, essa também existe - há lojas de ferramentas, lojas com maquinas de jogos, uma farmacia e, como não pudia deixar de ser ou não fosse isto o Japão, uma loja de dedicada a manga. Ou melhor, uma loja enorme, massiva e arrebatadora dedicada a livros que contam com uma imagética a duas dimenções para contar ou sugerir a história que contêm. Ficam as imagens da secção de shounen, ou melhor, a secção dos shounens mais populares (que obviamente tem o One Piece :), e a secção de shoujo, respectivamente.


A caminho do supermercado

Aqui, em Tenri, há três supermercados principais. O maior - o aeon - fica mais longe e mais fora de mão, o que nos leva a caminhos raramente vistos e explorados. Desta vez, a primeira que a necessidade me fez lá ir, levei a máquina :)

Tuesday, 15 September 2009

De noite

Há algo de misterioso, incomum e observante no ar. De dentro de cada parede desconhecida, debaixo de cada sebe metodicamente arranjada, no telhado de cada casa estranhamente familiar e familiarmente estranha, atrás de cada poste esguio, ao lado de cada árvore carinhosamente tratada, à frente de cada estrela invisível, algo observa. Não nos observa a nós, transeuntes a caminho de casa, não me observa a mim transeunte da passagem infinita, não observa a roupa, não observa os passos, nem os gestos, nem os sons, nem as palavras, nem os laços. Não observa os pensamentos, as emoções e o que resulta dessa eternal dicotomia. Não observa o céu escuro, nem a lua decadente, nem as nuvens. Não observa deus, nem os anjos, nem os mensageiros, nem os iluminados, nem os sábios, nem os sagrados, nem os malditos, nem os amaldiçoados, nem os que partiram. Não observa onde está, nem onde não está, nem onde não pode estar, nem a si mesmo.

E no entanto eu sei ... que algo observa.

Eva cookie

Só mesmo em supermercados japoneses é que podia haver isto.

Monday, 14 September 2009

Tenri Omatsuri

Depois da manhã agitada e da paragem pela cama durante a tarde, o inicio da noite anuncia-se com um céu obscuro, uma atmosfera densa e o festival de Tenri. Eu não o sabia, mas o Open Campus coincidia com o 天理お祭り que é como quem diz, o festival da cidade de Tenri que dá o nome a este post. O contraste entre o que pairava sobre as nossas cabeças e a animação vista pelos nossos olhos é assustadora. Um palco imenso apresentava uma performance de dança (?) colectiva de vários grupos e as bandeiras gigantes esvoaçavam em cima da energia em forma humana que povoava o palco e o publico deste. A zona das comidas tinha montanhas de iguarias cujo nome eu não sei mas entre ele estava o onigiri, um prato parecido com comida chinesa de Portugal e frango (?) frito. ~Yume~
Depois do obrigatório hanabi, que até teve direito a uma contagem decrescente, tudo mudou. Como se automatizados pelo fim do festival, todos cumpriram um papel implicitamente definido: os visitantes dirigiram-se para a saída, os vendedores começaram a dar – sim, DAR, muhahahaha – as últimas sobras do que tinham preparado e a organização começou a desmontar e arrumar o palco, as cadeiras, as barracas e até os caixotes de lixo. Nem deu tempo de comer as iguarias oferecidas: o festival morre depressa com os voluntários mais jovens a procurarem, à luz do telemóvel, o lixo que poderia ter escapado aos olhos que os antecederam.

O fim da noite foi marcado por uma situação caricata e aparentemente rara: dois guardas de transito (!!!) numa troca furiosa de empurrões, que os colocaram no chão e tiraram bicicletas fora do seu descanso; sapatadas, com um sapato que veio dos pés de um deles; chapadas e provocações e caras em fúria. Não sei o que se passou mas a teoria do cansaço parece-me plausível. Alas, foi curioso constatar que ninguém se quis envolver, separar, ajudar ou até mesmo olhar para os dois lutadores de rua. Uma indiferença surpreendente, principalmente para quem vem de um pais como Portugal.


PS: quem quiser o video em *.mpg avise (^^,)
PPS: aqui está ele

Open Campus

Hoje, no décimo primeiro dia em que estou neste país, foi Open Campus, isto é, dia aberto, na Universidade de Tenri onde em breve vou começar as aulas. E foi surpreendente… Acho que posso admitir, por agora, e se a internet não me falha, que muitas das pessoas que lêem este blog me conhecem e que, se ficaram à minha volta, foi por uma certa proximidade, vamos chamar-lhe, psicológica e que, tal personalidade, se pode exprimir em alguns gostos e que, um desses gostos passíveis de ser partilhado entre nós, é o da cultura japonesa e que uma parte dessa mesma cultura é o anime e que, para quem já entrou nesse mundo e já viu algumas dessas obras, a escola e os seus festivais são um tema, situação, espaço e evento recorrente. Ora tendo estado num desses acontecimentos, posso dizer que a criatividade do anime não é assim tão transcendente aquando do retrato de tal condição.
Primeiro, a simpatia que emana, quase palpável, de toda a gente. Alunos e professores, ajudantes e visitantes são, mais do que prestáveis, proactivamente prestáveis: metem conversa, perguntam coisas, dão portas para estabelecermos os nossos próprios caminhos de conhecimento e, mesmo com a imensa barreira linguística é possível conhecer pessoas excelentes. Como o professor de inglês, com quem obviamente falei a língua da rainha ^^, que vive cá trinta à anos, que não diz mal do professor japonês com quem obviamente tem um antigo e “pequenino” atrito, eu me recomendou esta excelente manga, por razões ficarão mais tarde aparentes, e que ouvia punk rock nos anos oitenta e ouve electrónica, noize e hiphop – Oh! A heresia! – desde há muito. Ou o professor de alemão que teve de mudar a tese de doutoramento dele, feita no Japão, por ser demasiado política e que disse que a vida é para se ir vivendo devagarinho. Ou a professora de espanhol que estava sempre a sorrir. Ou as japonesas que estão a estudar português (do Brazil) e que já lá estiveram a viajar durante um mês. Ou o rapaz de dezoito anos que adora o Brazil, a sua cultura, as suas pessoas e a sua diferença, pela mesma razão cultural e quase magica porque que tanta gente, em Portugal, adora o Japão. Depois, a dinâmica de sala e das próprias pessoas. Toda a gente ajuda de forma automática, toda a gente, sem saber bem o que fazer, faz algo de produtivo que necessita de ser feito. Nunca a metáfora das formigas com a sua auto-organização e colectivismo esteve tão bem como na sociedade japonesa. Finalmente, há uma aura no quase imperceptível ar de dedicação. Dedicação à universidade, ao departamento, aos eventos, ao público, aos outros e a nós mesmos. Essa aura parece que toma conta de nós e nos faz sentir que, ao mesmo tempo que somos uma peça do puzzle somos uma peça que faz falta.

Eu, no puzzle em que me encontrava, encaixei no apoio aos alunos que, saindo da escola, poderiam entrar na universidade para estudar português. As apresentações da sala, onde se encontravam representados quase todos os departamentos de línguas da universidade, numa demonstração do poder da fala e da língua, foram feitas nas línguas originais de cada departamento. Começou o Português, representado pela Arima e por mim. Depois seguiram-se uma panóplia de línguas das quais não se entendeu nada ou, em raros casos, muito pouco: o russo, como uma nuvem de poeira e neve nas palavras e frases; o coreano, como um japonês fora dele mesmo; o chinês, com seus altos e baixos em entoações e harmonias; o tailandês, com palavras vindas da garganta que me pareceram muito indianas; o bahasa indonésio, do qual só me lembro de coisas como patapata; o francês, como nós, “europeus”, o conhecemos; um alemão muito mais suave e feminino ao que estava habituado a ouvir; o espanhol, bem longe da língua de Camões para não haver confusões; e, por fim, a língua mais universal, falada pela pessoa, envergonhada, nervosa e stressada, que a menos sabia na sala, o inglês.
A manha passou suave, com muitas conversas e sem incidentes de maior. Uma curiosidade que vale a pena contar é a imagem das famílias que nos visitaram para ir ver o possível curso das filhas. É estranho (lol redundância) ver que, no Japão, a mulher é que toma o papel principal: fala com quem é preciso falar, diz o que é preciso dizer, pergunta o que acha que tem de perguntar. Ela é quem comanda as filhas, os filhos e o marido que tem um papel quase puramente presencial, pelo menos na situação em que nos encontrávamos.

Finalizando (quase) o evento, durante o almoço, nas cantinas e à borla pela ajuda que demos, houve musica ao vivo dos clubes de koto, e gagaku. E deixem que vos diga que, principalmente gagaku, é mil vezes mais poderoso ouvido ao vivo. É como se pudéssemos mesmo ver os dragões a crispar o céu e os mesmos a caírem sobre a sua existência. Escusado será dizer que é uma musica fabulosa, lindissima e imersiva para se ouvir e horrível para se ouvir durante o almoço numa cantina.


(Re)aprender bicicletas

É muito mais fácil andar de bicicleta se os pneus estiverem cheios e é muito mais difícil andar nela se tivermos botas de biqueira de aço calçadas ^_^

Tenri é uma cidade muito plana, embora o caminho para a universidade seja meio a subir -_-, portanto as bicicletas são dos meios de transporte favoritos por aqui. É rápido, eficiente, económico, saudável, limpo mas muito mais cansativo do que andar... Suponho que seja uma questão de habito. :)

Sunday, 13 September 2009

Kawaii ne ~

Por entre o prédio do apartamento, por vezes há tesouros escondidos ...


... e é tão bom descobri-los depois de uma noite bem passada :)

Sabia que ...

... é proibido atender ou fazer uma chamada de telemóvel nos comboios? Pelo que se sabe é para não perturbar as pessoas em redor e não causar mal estar auditivo a ninguém.

Só sms, mail e todo o que se possa fazer ... em silêncio.

Chuva

À dez dias cheguei e estava um calor digno de um forno tropical ou de um deserto sufocante. Agora, dia doze, chove. Não é aquela chuva miudinha que irrita e molha todos os que pensam que a podem levar a melhor. É chuva a serio, a chuva das tempestades que espero vir a ver, a chuva dos ventos ciclónicos, a chuva insuportável, fria, violenta, desanimadora e demoníaca que eu adoro.
Quem diria que o tempo no Japão era tão volátil?

Saturday, 12 September 2009

Quinze minutos num comboio

Por volta das vinte e duas horas do dia onze de Setembro de dois mil e nove, algures dentro de um comboio entre as estações de Osaka e Yamato-Saidaiji, em pouco mais de quinze minutos passaram pelos meus olho algumas quimeras, talvez estranhas mas não incomuns, pela frente.
A saber, um homem nos seus quarentas ou cinquentas, com todo o aspecto de quem voltava do trabalho, a adormecer, de pé, contrariando a gravidade e as oscilações do comboio apenas pela força das mão que seguravam, em cima da sua cabeça, os oops-falha-de-vocabulários; um homem com mais ou menos a mesma idade a voltar de fazer mais ou menos a mesma coisa mas a adormecer, também de pé, encostado à porta; um homem nos seus quarentas a ler um livro, cujas “linhas” iam da direita para a esquerda e de cima para baixo; um homem nos seus trinta anos a ler a Young Animal, que na capa tinha o DMC; outro homem, desta vez nos seus vinte e muitos anos, a ler uma manga que desconheço; doze pessoas a mexer no telemóvel, cinco delas concentradas num espaço com aproximadamente cento e setenta centímetros quadrados; quatro pessoas, incluindo um homem com uns quarenta anos, a jogar em consolas portáteis; três pessoas a ouvir musica com um iPod; uma mulher de olhos lacrimejantes, prestes a chorar; uma menina com uns seis anos a olhar para o gaijin de cabelos compridos que estava por perto; e, por fim, duas raparigas com saltos altos e mini-saias mais pequenas do que é “aceitável” em costas portuguesas.

uff ~ que overload na minha pobre percepção visual!

Viagem de comboio

O comboio oscilava suavemente na sonolenta manhã. A viagem adivinhava-se longa mas o tempo encurta quando os olhos estão virados para fora. Da janela, o Japão apresentava-se-me a ele mesmo, fundindo-se com os meus pensamentos dele que, como uma névoa, formavam-se e dissociavam-se a cada nova paisagem ou pormenor.
As casas pequenas de madeira escura e telhados azuis-escuros de formatos triangulares e cheios de pormenores orientais intersectavam-se com os pequenos campos de arroz verdejantes, lembrando tempos pequenos com as respectivas plantações (ia-me escapando a palavra “horta” mas, em terrenos nipónicos, soa muitíssimo mal). De vez em quando, o azul diverso de regatos, rios, lagos e, ocasionalmente, do mar aparecia e voltava a esconder-se. Enquanto portadores de energia, grandes e pequenos, perto e longe, bizarros e planos, salpicam a paisagem com a sua presença eléctrica e os seus fios pretos que, por vezes, parecem cobrir o mundo.
Aqui nunca se está no campo e nunca se está na cidade. As extensões frescas de árvores e verde dão, rapidamente, lugar a prédios densos e estranhamente suaves e a única coisa que indica que o onírico pode ser (ir)real são as ocasionais chaminés fumegantes que morrem no horizonte perdido.

Friday, 11 September 2009

SoftBank


Aviso: Os acontecimentos narrados aqui são reais até ao ponto que a minha percepção o permite.
[inicio aqui]



Antes de lerem isto quero que vejam o vídeo aqui embebido e tenham em mente que as quase duas horas que vou sumarizar foram, quase na sua totalidade, acompanhadas por essa e outras (igualmente … japonesas) publicidades a passar numa televisão próxima.

Tudo bem, tem-se uma conta bancária d/nos correios. O próximo passo é ir comprar o telemóvel e o que isso implica: ver os preços, tarifários, descontos, promoções, dinheiros, etc. Fácil? muhhahahaha! Não.
Felizmente esta tarefa de hoje ficou muito facilitada pelo dia de ontem (dia de orientação, que vai merecer um (?) post só para si, espero eu, em breve), onde apareceu a mesma problemática e pela prevenção de já ter passado pela loja anteriormente. As dificuldades linguísticas (de ninguém se entender na totalidade e serem precisos tradutores), culturais (eles tão mesmo, mesmo, dentro da tal caixa) e empresariais (a burocracia, mesmo a mais simplificada, está mesmo em todo o lado) passadas nos correios mantiveram-se mas um bocadinho mais atenuadas. Parece que também aqui a privada funciona melhor.

A questão aqui era simples. Para ter as promoções e descontos e vantagens que um estudante tem é necessário comprar um telemóvel. O problema é que, como ficamos aqui um único ano o contrato do dito telemóvel também terá um único ano, o que, para a empresa – SoftBank – é muito pouco. Isso quer dizer que o preço a que o telemóvel é disponibilizado, mesmo com as promoções, vantagens e descontos que eles dizem ter é caro. E, se caro para mim é acima de cinquenta euros, 200000円 é mesmo muito caro. Felizmente uma alma caridosa, mas mesmo muito caridosa, arranjou-me um telemóvel velhote e meio em mau estado (aparentemente os japoneses não se preocupam com o estado das coisas pois tem a certeza que a vão trocar em breve) que está em perfeitas de uso e em péssimas condições estéticas: perfect!
Ou seja, basicamente, em vez de pagar 490円 por mês vou pagar 1300円. Tenho, tal como nas promoções de estudante, chamadas à borla para a mesma rede da uma da manha até às nove da noite. Pago, tal como nas promoções de estudante, vinte e um cêntimos em cada trinta segundos e por cada sms, dentro das quatro horas fora desse horário. Para, ainda tal como nas promoções de estudante, 3円 por cada mail que mando do telemóvel. E, claro está, tenho um custo de activação, que em Portugal seria pago com o cartão em si, que é desprezível em relação ao preço exorbitante do telemóvel novo, bonito e moderno que eles me queriam por nas mãos.

hihihi great success!


Ginkou to yuubinkyoku

Aviso: Os acontecimentos narrados aqui são reais até ao ponto que a minha percepção o permite.
[continuação aqui]

Quando se vai para um sítio durante um ano com o objecto (um dos objectivos) de conhecer gente nova com outras perspectivas de vida e de outros países, umas das coisas que é necessário é um telemóvel (por razões de modernidade, suponho eu). Se esse país for o Japão esse telemóvel deve ser japonês. Além de ser muito mais barato para contactar com os japoneses e residentes daqui, há várias diferenças entre telemóveis japoneses e portugueses, sendo a mais patente o serviço de mail incorporado no telemóvel. Isto é, um telemóvel, alem de um número tem um email: uma evolução lógicas das sms com algumas vantagens engraçadas, sendo as maiores a possibilidade de mandar mensagens escritas com tamanho (quase) infinito; a existência de anexos e a incorporação dos telemóveis na rede, já muito conhecida, dos mails.
E aqui começa o problema: o que fazer quando se quer comprar um telemóvel no Japão? Será que os vendedores entendem inglês? Será que os vendedores entendem o que fazem? Será que há muitas restrições ou necessidades? Tudo a seu tempo mas, para este post, o foco vai ser na necessidade de termos uma “conta bancária”. (Tento nas aspas pois a sua significância é relativamente elevanda)
E como é que se tem uma conta bancária no Japão? Ora, qualquer pessoa sabe como começa o processo de ir a uma conta bancária: ir a um banco. No Japão isso é falso. O processo de ter uma conta bancária começa por escolher se a queremos nos correios ou num banco. E porquê? Porque os correios não têm tantas taxas e estão em todo o lado. Porque é que isso é relevante? Porque no Japão não há bancos que funcionem de forma global. Trocado por miúdos não há nenhum banco que tenha balcões e/ou ATMs em todo o Japão. Mais: são raros os bancos que têm ATMs em todas as cidades da sua área de funcionamento. É o mesmo que ter o Millenium a ter só balcões e ATMs no (por exemplo) Algarve e não ter, pelo menos, uma ATM em cada cidade. Como devem calcular isto, para alguém com o mínimo de bom senso é muito, mas mesmo muito, difícil de entender. E é ainda mais difícil de entender se considerarem que a) o senhor que nos atendeu não sabia inglês; b) ninguém que estava nos correios sabia inglês; c) os meus tradutores oficiais (どうもありがとうみんな!) percebem pouco de paleio de bancos e/ou correios; d) é muitíssimo complicado explicar a um japonês algo que não lhe esteja incutido pelo que habitualmente faz; e e) os japoneses são horríveis a pensar fora da caixinha da sua rotina e da sua papelada.
E vocês, com o espírito crítico que vos sei devem estar a perguntar: “Então qual é que é o problema de abrir uma conta nos correios? Se for só a estranheza não é uma razão muito válida!” Haaa … mentes inocentes intocadas pela estranheza do Japão, imersas no conforto de Portugal e da Europa e, aparentemente, sem atenção ao texto (-_-) Eu repito: nos correios fazem-se contas bancárias mas isso, pelo menos para a mente nipónica, não tem nada, mas mesmo nada, haver com o facto deles não serem bancos. Isto é, muitos dos serviços que um banco faz – crédito e transferências interbancárias, por exemplo – não existem nos correios e ter lá uma conta não quer dizer que eles passem a existir. No fundo, e isto foi-me dito (ou, pelo menos, traduzido) com todas as letras, se quisermos enviar dinheiro de uma conta portuguesa para esta “conta bancária” (lol aspas) dos correios temos de ou levantar cá o dinheiro da conta portuguesa e, de seguida, deposita-lo na conta dos correios, ou de mandar o dinheiro pelo correio e depois depositá-lo na dita conta.

E tudo isto foi o resultado de 3 horas de stress e irritação, muitas perguntas em português, muitas perguntas em japonês acompanhadas de muitas traduções, com uma quantidade enorme de muitas explicações em japonês seguidas de uma quantidade ainda maior de explicações em português. No fim, porque ainda precisava de uma “conta bancária” para ter o telemóvel e porque as contas nos correios a) não tem um preço por as abrir; b) podem ser abertas com 0円 lá dentro e; c) são automaticamente fechadas em caso de inutilização, lá fiz a “conta bancária” dos correios.


[*] Ginkou to yuubinkyoku = Bancos e correios

Sabia que ...

... é proibido vender os uniformes das escolas japonesas a toda a gente que não seja estudante?

Vá-se lá saber porquê... :)

Choque cultural (二)

No seguimento do post anterior. Quando vão fazer um favor a um japonês, ou a um oriental, esperem receber uma recompensa. Isto é, se fizerem algo que, na sociedade ocidental é considerado “simpático”, na sociedade oriental essa simpatia vem acrescida de um preço. Não sei bem qual é o câmbio, mas aparentemente varia entre os vários países deste lado do mundo.
Posso é dizer que, na Coreia, a entrega de uma carta que, por engano, foi ter à nossa caixa de correio, vale uns quatro figos. E que os figos japoneses são óptimos!

Choque cultural (一)

O choque de culturas é enorme. Isso já se sabia. Mas o que é verdadeiramente é contacta-lo na sua plenitude na vida do quotidiano. Um bom exemplo é as recusas que os japoneses dão quando lhes oferecemos algo. Está-lhes na vivência que, para não incomodar, ser delicado, ou sendo simplesmente um estereótipo social, deve-se recusar duas vezes qualquer coisa que lhes seja oferecida por um anfitrião, familiar ou amigo, sendo essa coisa aceite na terceira tentativa do interlocutor. Por um milhão de razões que todos nós podemos pensar, é estranho mas, não estranhamente, confirma-se. É claro que, com um maior nível de proximidade, como todas as regras sociais, isso pode não ser contornado para uma aceitação na segunda ou mesmo na primeira (!!!) vez.
Portanto já sabem, se querem mesmo que um japonês prove um doce que tem por ai ou venha comer com vocês: peçam três vezes. Só a última é aceite, mesmo que desde início ele o tenha querido.

Dentro da caixa

No dia de hoje, como se numa continuação do dia de ontem, fomos ver dos telemóveis e da necessária conta bancária (nos correios) para ter o contrato. Tanta, tanta, tanta, tanta confusão. O estereótipo dos japoneses não pensarem fora da caixa em serem quase maquinais com a burocracia implícita concretiza-se terrivelmente quando, entendendo pouco da língua, tentamos abrir uma conta, sabendo todas as implicações da mesma, num banco que não é um banco e, de igual modo, tentamos comprar e entender os tarifários do telemóvel. A história é grande mas receio não haver tempo, por hoje (?), para a contar com todo o pormenor (e desespero :s) que ela merece.

De qualquer maneira, à pouco, fomos comer udon num restaurante tradicional ~ yume! Aquele ove deitado para lá ainda meio cru dá um sabor fantástico à sopa que acompanha a massa. Mas tende cuidado: muito gengibre mata! Fica a foto ^.^