Friday, 9 October 2009

Fim do dia

Antigas civilizações

Resolvi ir a uma aula de história totalmente falada em japonês (zenzen wakaranai!) e, tal como me tinham dito, a aula foi passada fora da aula e, desta vez, o professor levou toda a gente, à borla, ao museu de Tenri ver os artefactos dos períodos Jomon, Yayoi e Kofun. As diferenças de tecnológicas e sociais são bastante visiveis mas o que é interessante mesmo é ver como a china estava centenas de anos à frente do Japão nesta altura. As duas imagens tem cavalos, respectivamente, do Japão e da China mais ou menos do mesmo período temporal.

Impressionante não é?

Lição III - Atomic Power: Gojira e Astro Boy

O tufão pode ter sido meio fraquinho mas foi o suficiente para as aulas (e o respectivo teste) terem sido canceladas da parte da manhã. E - uff - não da parte da tarde, o que quer dizer que a terceira aula de anime se expunha perante mim. Nesta aula avançamos para o verdadeiro inicio do anime como o conhecemos hoje e, numa analise social do Japão pós-guerra soltamos entre nós as parecenças, semelhanças e porquês sociais de dois fenómenos japoneses da segunda metade deste século: o Godzilla e o Astro Boy.
Pode-nos não ser assim tão trivial como isso, em particular por causa da distância e da rara reminiscência sobre o assunto, mas o Japão foi completamente trucidado na segunda grande guerra. Bombardeamentos impiedosos (e, há quem possa dizer, merecidos) dos Americanos, como por exemplo, os inúmeros ataque de B-29 em Tokyo e as duas bombas nucleares tiveram um efeito profundo da mentalidade japonesa. O mais gritante sendo o imperador, que na escola primária era dado como um ser divino e pai da raça japonesa que, portanto, era protegida por Deus, disse, publicamente, que não era um deus: imaginem o efeito de engano, confusão, estupefacção, traição e a crise de identidade colectiva que sai de uma mudança de cento e oitenta graus como essa. Além disso, no fim da guerra, além da crise psicológica havia uma crise material enorme, não havendo absolutamente nada, nem mesmo para comer, tal como o Grave of the Fireflies nos conta.
Um dos grandes impulsionadores da economia da altura foi a indústria de brinquedos, usando os desperdícios do Americanos, conseguiam-se fazer brinquedos para a venda à própria América. O “Made in Ocuppied Japan” é uma tag, naquela altura normal, que muitos coleccionadores gostam de ter nas suas colecções. E, mais uma vez, podemos ter a ideia do efeito que tal marca teve na orgulhosa e, até há bem pouco tempo, especial e protegida por um poder divino, mentalidade japonesa. Alas, não muito tempo depois da guerra, do Japão, sai o filme que mais marca a colectividade japonesa do período pós guerra: o Gojira, por nós reconhecido como Godzilla. Ver um monstro, vítima de um acidente nuclear, por causa de uma guerra que nada lhe diz, perdido no meio do caos civilizacional e de um mundo que não entende, é reminiscente do que muitos japoneses pensavam e, mais importantemente, sentiam, naquela altura. E, do outro lado da moeda, a devastação criada por esta entidade era facilmente parallisada com a devastação, sentida na guerra. Eis o porquê da popularidade de um monstro destrutivo numa civilização destruída: por um lado a sua inocência e génese era facilmente reconhecida nesses tempos de traição; por outro, a devastação criada era, também ela, facilmente reconhecida nas paisagens de fogo, outrora verdejantes, vividas à tão pouco tempo.
Paralelamente ao Gojira, agora no meio da manga e, depois, do anime, vem um ser que vem marcar o anime para sempre: o Astro Boy. Este robot simpático, com a aparência de uma criança, que só quer ajudar e salvar os outros e, numa temática que se tornaria famosa depois da industrialização, ser humano sem nunca o poder; também foi trazido à vida com o poder, visto no Japão como em mais nenhum lado, da energia nuclear. E as semelhanças com o Gojira acabam por ai. Lutando por um mundo em que robots, humanos e animais vivam em harmonia representa o sonho de um Japão forte, industrializado e pacífico que estava na mente de todos os que presenciaram os horrores da guerra e viam que o futuro estava em juntar o que é mecânico ao electrónico. Mais do que isso, este robot, que embora tenha os poderes e a potência que só um robot pode ter, também, tal como o Japão, não tem uma identidade definida, com o seu coração humano e o seu corpo de criança que não pode crescer. Como é que ele resolve este problema? Bem, vós tendes de ler a manga, mas creio que não é difícil de adivinhar :)



Tufão: manhã seguinte

Como se diz, depois da tempestade vem a bonança...

Thursday, 8 October 2009

Tufão: desilusão

Passando a uns oitenta quilómetros de Tenri o tão antecipado espectáculo do tufão ficou-se por uma tempestade chuvosa e com algum vento chato mas nada de caótico ou apocalíptico como nos nos foi prometido. Quer dizer, a expectativa estragou tudo: a tempestade foi fantástica mas estava à espera de algo ligeiramente muito mais destrutivo.
De qualquer modo, fica o vídeo de um especial de TV que mostra o que aconteceria se Tokyo fosse atingido por um tufão ENORME (lol @ 5:17 e 5:55); e as fotos da noite.

Tufão: espectativa

Confirma-se que passa por Tenri o tufão que está a fazer as delícias dos media por aqui. Está a subir pelo Japão e espera-se que viole a cidade por volta das três da manhã >:D Agora há ventos e chuva mas nada de grave ou anormal: afinal, a tarde ainda nem acabou de morrer.
Eu, entretanto já me decidi: vou mesmo acordar ou ficar acordado para ver esta maravilha da natureza a destruir tudo à sua passagem. E claro, se o cuidado for varrido da minha cabeça pelos ventos ciclónicos sou capaz de ir dar um passeio à chuva e tentar desviar-me das telhas, vasos e árvores arrancadas dos respectivos locais ^^,

PS: espero mesmo que amanhã não haja aulas, se não o teste vai correr muitíssimo mal.

Nona lição

Que coisa tão caótica ... em breves três horas demos os nomes dos dias da semana, os nomes dos dias do mês, os meses, o anteontem ontem hoje amanhã depois de amanhã, o semana passada esta semana para a semana, e a mesma coisa para os meses e anos. E ainda acabamos de ver os kanjis dos números e as horas. Tudo isto, como se lembra toda a gente que apreendeu alguma língua, recheado de excepções que não fazem sentido e ninguém sabe explicar mas é, simplesmente, assim.
uff ~ e amanhã há teste geral da lição um à sete ;_;

Wednesday, 7 October 2009

Talvez... um tufão

Há vários posts no forno para serem servidos antes deste, mediante a linha temporal que os cria, mas por necessidades que se tornaram aparentes, resolvi, provisoriamente, colocar aqui este agora.
Eu não percebo nada das noticias, não vejo TV e não ouço rádio, mas aparentemente há um tufão mais ou menos grande (nível cinco) no Japão e aproxima-se da minha presente localização. Esta manhã estava em Okinawa e com cada vez menos probabilidade de se desviar para o pacifico. Pensa-se que atingirá a zona de Nara, onde Tenri se encontra, por volta das quatro da manhã de hoje. Temos a recomendação de não deixar nada lá fora, fechar todas as janelas e não sair durante a noite, com o risco de sermos atingidos com detritos, telhas, baldes (?) e vasos. A Universidade pode vir a ser fechada mediante o estado das coisas pelas oito da manhã. As coisas devem suavisar pelo fim da manhã, dado que, por volta do meio dia, dizem as previsões,o dito estará pela zona de Tokyo.
E agora a pergunta óbvia: se tivessem a oportunidade de ver, experimentar e sentir de perto num tufão com um tamanho respeitavel descarta-la-iam ficando em casa, como vos foi "recomendado"?


Time here: 15:14

Kanji (一)  前

Hoje continuamos, durante as três horas de massacre pela manhã, a lição oito, que corresponde à terceira lição de kanji (dados, diga-se já, mal e porcamente) e foi exactamente onde tive a primeira revelação sobre o importante múltiplo significado dos símbolos e a importância secundária da palavra na língua japonesa.

Explicando, e aviso já que isto pode ser secante para os que não têm interesse nestas coisas, a situação/revelação. O kanji mae () significa, ou melhor, pode significar “à frente”. Ou seja, para dizer que, por exemplo, algo está à frente do portão, usa-se esse kanji embebido na respectiva construção frásica.

車は門の にあります。(sim showoff, eu sei eu sei…)
Kuruma wa mon no mae ni arimasu
Um carro à frente do portão está. (tradução literal)
Está um carro à frente do portão.

Até ai tudo bem. Mas mae () também pode querer dizer o que facilmente se traduziria por “antes” (ou por “falta”) quando usado numa expressão relacionada com tempo. Por exemplo, e tentando seguir a tradução da palavra mae com itálico, para dizer as horas temos o seguinte:

今は九時五分 です。
Ima wa ku ji go fun mae desu.
Agora são nove horas e dez minutes antes. (tradução literal)
Agora faltam dez minutos para as nove.

Infelizmente na tradução correcta toda a semelhança entre o significado de mae nas duas frases apresentadas se perde, mas é fácil (ou não :) ver a lógica por detrás do uso em duas situações tão diferentes o mesmo elemento simbólico. É que tal como o carro está à frente do portão, também as horas que dissemos (nove horas) estão à frente, no futuro, em relação ao tempo presente. Mais exactamente, as nove horas estão dez minutos “à frente” no tempo, em relação à hora (às horas) que agora é: oito e cinquenta. E, como toda a gente sabe, dez para as nove representa o mesmo instante temporal que oito e cinquenta.

Além do mais, mae (), este forte objecto simbólico tem mais usos, por exemplo, para dizer que uma dada figura está numa página anterior de um livro e, aparentemente, para representar localizações temporais passadas num passado definido, como por exemplo "à dois anos" ou "à nove meses"... suponho eu, pois isso será de uma lição futura, pela mesma lógica usada nas horas.

Awesome stuff não é?

Cookies

As bolachas japonesas, ou pelo menos as bolachas que vêem do exterior para o Japão, são estranhas. Não pelo sabor, que até é surpreendentemente bom, nem pelo preço que só é sustentável em dias de promoção, mas sim pela embalagem. É que em vez de virem dentro da caixa, como todas ou quase todas as bolachas por ai, vêm dentro de mini embalagens, muitas vezes, como neste caso, com uma só bolacha, e essas sim vêm dentro da embalagem. Imediatamente vem o pensamento de um bento todo arranjadinho com uma única bolacha escondida em plástico como sobremesa ~ sad sad ~
Alas, as bolachas são boas e é engraçado pensar que todos os japoneses lêem os katakanas na embalagem em vez do romangi que todos nós lemos.

Tuesday, 6 October 2009

Passado e o imperador

Estava a ler o artigo para a aula de amanhã de História do Japão (mais sobre isso, talvez, um dia destes) sobre os três períodos - Jōmon, Yayoi e Kofun - pós-paleolíticos da história do Japão quando leio que "está na constituição japonesa que o imperador é o símbolo da integração da nação". Que ideia tão boa para manter as mentes imperialistas do Japão mais ou menos tranquilas, afinal ainda têm um imperador, este ainda tem um poder simbólico enorme e toda a situação ainda tem uma, chamamos-lhe assim, nostalgia social muito grande. Afinal, o imperador é um descendente divino, que faz parte da maior dinastia do mundo, que lidera o povo do Japão para o seu futuro glorioso, não é? :)
Seja como for, recomendo muito, particularmente para quem gosta destas coisas, reminiscentes da escola primária, de história a darem uma vista de olhos pelos artigos da Wikipédia sobre esses períodos. Afinal, é deles que advém muita da cultura, tradição e referencias de tantas coisas que, hoje em dia, dizemos e sabemos japonesas.

Visões Sureais II

O Miguel, desta vez com as suas novas botas de biqueira de aço, a andar de bicicleta no escuro de uma noite de Outono, sobre uma lua cheia coberta por nuvens cinzentas e opressivas que fustigavam com água incessante os passeios desertos da cidade, e com o casaco até aos pés apertado nos últimos dois botões de modo a cobrir as pernas que se esforçavam para atingir o local de venda de ramen instantâneo mais próximo.
Suponho que só no Japão ~ ^^

Sim, eles existem ...

... exclusivamente na zona de Kyoto, como diz o sinal a dourado no canto superior direito da caixa.
E são tããããõoo bons!!

Simpatia Japonesa?

O porquê do ponto de interrogação advém de pensamentos negro que, em boa verdade, (ainda x) não tem razão de existirem, mas até onde é que o dever social ou empresarial está em sintonia com os nossos desejos, ambições e, claro está, simpatias?
De qualquer modo, acabou de acontecer agora mesmo. Tive de ir aos correios à alguns poucos minutos e, estando cansado do dia de aulas sai de lá sem levar a factura e o troco. Passado pouquíssimo tempo o senhor que me tinha atendido aparece a pedir educadamente desculpa e começa a falar japonês num discurso do qual eu só entendo a palavra porutogaru. Depois é que vejo que ele tem um saquinho de moedas e uma factura na mão e só ai é que ligo as peças: ele está aqui para me dar aquilo de que me esqueci e apanhou a minha morada pela carta que lá deixei. HOLLY HELL! Quer dizer … alguma vez isto aconteceria em algum lugar do mundo? E ainda por cima ainda me pediu desculpa pelo incómodo de aparecer por aqui sem avisar O.o
É como disse, até que ponto vai a simpatia japonesa ou o que parece ser uma simpatia demasiado simpática? Quando a esmola é muita o santo e desconfia…

Monday, 5 October 2009

Winter comming

A pouco menos ou mais de um mês do último, agora, exactamente às duas e trinta e um do dia cinco de Outubro de dois mil e nove, acabo de voltar (sim sim, bicicleta e chinelos incluídos ~) de um passeio à lua cheia, essa rainha nunca ofuscada, mesmo por véus nipónicos. E uma coisa, além da tranquilidade, beleza e memória, ficou deste encontro de espíritos: o inverno está a chegar. O belo inverno gélido, ventoso, desagradável, doentio, macabro, assustador, coberto de neve e nevoeiro e pesadelos, está a chegar.

TV bizarra









É conhecimento comum que a televisão é detestável, horrível e uma total perda de tempo e de neurónios em toda a Terra. O que não quer dizer que a TV japonesa não tenha algo para oferecer a todos aqueles que querem apreender a língua e que, logicamente, beneficiam de tal verborreia constante. No entanto, além disso, o sentimento de bizarro, estranho, incompreensível e totalmente novo que tenho ao ver a TV aqui quase - quase! - compensa o tempo gasto. Estas imagens estarão a passar na TV daqui a três dias, em dois canais diferentes, aproximadamente à hora deste post.
Tão ... lolwut!

Saturday, 3 October 2009

私の誕生日!

Fora o facto, absolutamente desprezável, de não estar habituado a festas minhas, foi absolutamente memorável. Houve bolos brigadeiros e baba de camelo, feitos pelas meninas mais simpáticas deste lado do mundo. Houve um jantar enorme num rodízio de sushi, em que se comeu lulas cruas e outros vinte e picos pedaços de arroz com peixe cru. Houve presentes e, principalmente, houve pessoas que, embora me conheçam à muito pouco tempo, tiveram paciência para me aturar durante sabe-se lá quantas horas, antes, durante e depois do dito jantar.
A minha politica não me permite colocar fotos personalizadas na internet, tal como não permite tirar dois pratos de sushi da passadeira rolante de onde, permanentemente, vêem vindo tais delicatessens, portanto, deixo-vos só com as fotos mais impessoais ... quem quiser as outras que, aparentemente estão bastante bem, diga-me quando me encontrar ou algo do género XD

On a related note, se repararem não há bem um "bolo de aniversário", pois aqui no Japão isso não existe! Pois é, tal símbolo de festa, mas também de idade, da passagem do tempo e do retorno forçado (e falso) à infancia não existe, o que, na minha opinião e para a minha mente, é algo muito mais tranquilo, real e fácilmente desfrutavel.


Aprender Português

Neste dia, uma das melhores prendas que tive foi uma conversa sobre a língua japonesa com alguém que é verdadeiramente letrado no assunto e agora, aqui, vou expor algumas das ideias que flutuaram nessa conversa.
A primeira é que a língua japonesa é, ao contrário das línguas mais comuns na Europa, uma língua que, de modo a fazer formas gramaticais, não muda, aglutina. Isto é, a frase mais básica – uma declaração no presente sem condicionantes ou outras complicações que não conseguiria explicar – é sempre a fundação para construir qualquer edifício semântico e a sintaxe que lhe vai definir a arquitectura é apenas aglutinada no fim dessa forma base, usando para isso as modificações e adições ao verbo, que se encontra sempre no fim da frase. Isto tem vários problemas, em particular para o entendimento de quem estuda japonês e para quem trabalha no desmantelamento desta língua noutra. Para já, em termos de fluxo (e) de significado, se para dizer “Não quero comer” ou “Eu comi” se tem de dizer “Quero comer não” ou “Quero comer passado” (tradução bacoca) é muito mais difícil apanhar o significado da frase a meio, visto que o verbo e o que verdadeiramente define a frase (não e passado) está no fim. O exemplo é simples mas se tentarmos com “A casa do senhor Tanaka fui” e “A casa do senhor Tanaka fica à frente da estação” vemos que a meio da frase ainda não se sabe do que se fala. Agora imaginem o que é, para um tradutor, traduzir japonês em tempo real: basicamente tem de se esperar que acabe a frase e, quando finalmente a traduzimos, estar atento ao que se está a dizer para podermos traduzir de seguida a próxima ~ complicated stuff! Além disso, e talvez por esta razão, há formas muitíssimo intrincadas para dizer coisas que nos parecem simples. A minha preferida é de longe (talvez por desconhecimento das outras :) o ~nakereba narimasen. Este gigante linguístico liga-se ao fim de um verbo que, como já foi dito, está no fim da frase, para dizer que se tem uma obrigatoriedade em fazer o que o verbo manda. É como o nosso “Tens de fazer-comer-jogar-estudar-rir-vestir-etc”. A sua construção é complicada e, para nós, pouco lógica: primeiro o ‘na’ coloca o verbo usado na negativa (não comer, não estudar, não etc); de seguida o ‘kereba’ é a uma transformação do sufixo “eba”, que simboliza uma condição (se não comer, se não estudar, se não etc); e, por fim, o ‘narimasen' é a forma negativa formal do verbo naru que significa, à falta de melhor, “funcionar, dar, tornar” (ou algo do género), o que resulta em “se não comer não funciona”, ou seja, tem de comer. O que é engraçado é que as duplas negativas (normalmente representadas pelo nai) não param por aqui: é linguisticamente legal dizer “ikanai kerebanaranai kamushirei” :)
E com isto chegamos ao segundo ponto que queria salientar, quão difícil é para um japonês entender que, na língua portuguesa uma dupla negativa é uma negativa mais forte e não uma positiva. Para eles que tem uma língua que, pelo menos neste aspecto, é muito mais matemática, é tremendamente confuso o (português do brasil) exemplo, “não faço de jeito nenhum”. E a mesma coisa para o diálogo “Está servido? Não, obrigada.”, pois começa com uma pergunta cuja resposta negativa e respectivo agradecimento espera uma acção positiva.
Para finalizar, só para verem que o português que tenta apreender Japonês está melhor que japonês que tenta apreender Português: já imaginaram como é, para falantes de uma língua que não tem futuro, não tem vários tipos de passado, e não tem plurais, apreender a conjugar os verbos portugueses? ^_^

Friday, 2 October 2009

Anime: lição II - manga history


E, na segunda aula de anime, falou-se de manga. Isto porque, como toda a gente, sabe a sinergia entre os dois e a dependência do anime à manga é bastante grande. Tendo como base este texto falamos das primeiras coisas que podem ser consideradas mangas e que apareceram em templos antigos há mais de novecentos anos, em particular o choju giga (animal scrolls) pelo Monge Toba que, com sorte, irei ver durante a minha estadia por aqui, e os jigoku zoshi (hell scrolls) usados por monges na aurora dos grandes movimentos religiosos no Japão para mostrar às populações não instruídas das aldeias o que lhes aconteceria se não se "portassem bem". É engraçado que o primeiro trabalho que pode ser considerado um slasher tenha uma índole e uma presença religiosa tão forte :) Passamos, depois, pelo século doze, na era Kamakura, em que se usava, pela primeira vez, texto e imagens para estabelecer uma narrativa coesa.

A história seguiu para as pinturas usadas para abrir a mente dos estudantes zen (sabiam que, em zen, a resposta para “Qual é o som de uma mão a bater?” é descalçar uma meia, coloca-la na cabeça e sair da sala?) e para shunga, no período Edo, que era o que neste período - de mil e seiscentos a mil oitocentos e sessenta e oito - se usava como pornografia no Japão (agora, ironicamente proibida neste país, por causa de influencias estrangeiras, sendo que apenas se pode ter acesso a estas obras, precisamente, no estrangeiro :s)
Por estes lados temporais surgiam também as primeiras novelas – visuais e não só - imprimidas em cartões de madeira e direccionadas para a população recentemente educada pelas revoluções educacionais desta era. O processo de impressão era engenhoso, em particular com o uso de cor: cada cor era desenhada na madeira como se o desenho estivesse a ser visto por um espelho e depois decalcado em papel; e claro que cada cor tinha de ter o seu pedaço de madeira, sendo o sincronismo espacial entre os pedaços da maior importância e dificuldade de modo a representar uma imagem mais ou menos complexa. Também por este processo de produção em massa se faziam os ukiyo-e, ou “imagens do mundo flutuante”, de onde sai imagem a super-conhecida imagem que acompanha este post, usadas para divertir, maravilhar, enfeitar e também para dar uma certa atmosfera aos red-light districts - sitios de diversão e não exactamente (só) de prostituição - da altura. E aqui abro uns parênteses com uma curiosidade, não sei se o nome depois foi transferido para a Europa, mas o nome de red-light, pelo menos por aqui, tem duas origens. Primeiro como é visto e revisto e referenciado numa multitude de locais que os mostram, as luzes destes sítios estavam cobertas com coberturas de papel circular vermelho; e, por outro lado, nos mapas das cidades estas zonas eram as únicas que estavam marcadas com tinta vermelha, numa espécie de mensagem não escrita para toda a gente que já a sabia XD

Entrando no período Meiji, nome facilmente reconhecivel pela sua recorência no mais do que famoso Samurai X, as influências do ocidente começaram-se a sentir em todo o lado, incluindo no meio que viria a ser manga como a conhecemos hoje. Foi por aqui que se começou a fazer os primeiros “quadradinhos” no Japão, influencia pelo que se fazia na altura nos Estados Unidos. Em particular os senhores Charles Wirgman e George Bigot lançaram revistas/suplementos de comics japoneses, que mais tarde se viriam a tornar as referências históricas da manga. Maioritariamente com humorísticas, estas revistas pegavam no dia-a-dia japonês depois da abertura do Japão ao mundo, por exemplo o tirar os sapatos aquando de entrar num comboio, samurais de casaco e chapéu ou os olhos maravilhados com a primeira bicicleta, e foi por esta zona que se começou a usar balões para representar quem diz o quê.
Os kamishibai, contadores itinerantes de histórias para crianças usando papeis pintados com imagens que iam sendo mostrados num mini-palco de teatro montado na traseira da sua bicicleta, atingiram o seu pico nesta época, tendo sido praticamente dizimados com a chegada da guerra e, mais tarde e mais gravemente, em mil novecentos e cinquenta e três, da televisão.
Durante a segunda grande guerra, manga reduziu-se a ela mesma a um veículo de propaganda, tal como se passava com outros meios de expressão em todos os sítios do globo. Visões caricaturadas de Roosevelt a parecer Mr Hyde e de Churchill como um elefante gordo eram, aparentemente, o prato do dia.

Por fim, a manga foi revolucionada, evoluida e cinematograficada pelo génio Osamu Tezuka, considerado por todos o pai da manga moderna, que introduzio praticamente todos os traços - efeitos sonoros, efeitos visuais, diferentes prespectivas visuais sobre o mesmo acontecimento, tridimencionalidade de desenho e profundidade das personagens e da acção - que hoje conhecemos por serem de manga. E, pouco depois disso, a par da evolução técnológica que marcou o Japão pós-guerra, foi feito um anime, meio de transmição, hoje em dia, muito mais popular que manga, acredito eu, por preguiça das mentes humanas, serializado na TV, da sua maior obra: o Astro Boy, do qual vimos o primeiro episódio. Mas isso, isso será uma outra história!

Awesome class is awesome!

Okashi wa amai nai

Alguém me perguntou como é que eram os bolos no Japão e, como sou um tipo simpático, resolvi dar aqui os meus cinquenta iens sobre isso. Os japoneses gostam de comer com os olhos e às vezes quase parece que é preferível ter bom aspecto do que saber bem. Os doces japoneses que provei eram todos tão infinitamente inferiores em sabor, confecção, diversidade que se denota mesmo que estou do outro lado do mundo. Alias, nenhum deles é muito doce, o que se vê bem até na língua: a palavra japonesa para doces (okashi) não tem nada haver com a palavra japonesa para doce (amai), nem sequer têm nenhum kanji em comum. Por outro lado, todos tem muito bom aspecto, particularmente os que estão em exposição nas lojas ~ há quem não saiba o que é bom!

PS: Titulo do post ~~ "doces não são doces" :)

PPS: Chagaram-me a cabeça para dizer que os doces da foto não são os tradicionalmente japoneses. São sim os doces ocidentais, vindos da America ou da Eupopa, adaptados ao estilo visual japones. (just for details sake)

Pela minha vizinhança

O dia de hoje foi complicado, portanto decidi ir passear pela vizinhança da minha casa. Um ribeiro, pontes, uma garça debaixo de uma delas, uma aranha a devorar a sua refeição, árvores, estátuas e o céu foram alguns dos tesouros encontrados. Ficam as votos para vosso deleite ~ todas elas tiradas a menos de duzentos metro da casa onde estou a viver. :)


Câmara municipal

Fui à câmara municipal, que fica mesmo do outro lado da rua e já tenho o meu cartão de cidadão ~valido até daqui a um ano e picos. O pessoal de lá é muitíssimo simpático, mesmo confrontado com o meu quase inexistente japonês e, embora não pareça super organizado: não demorei mais de cinco minutos por lá ^.^

Cheirar as ... flores

Passo por ai todos os dias de bicicleta para ir para as aulas; e há muitas vezes em que não se repara nestas preciosidades mas, de vez em quando, é bom parar para cheirar as rosas... ou flores vermelhas que crescem no Japão.

Outubro começa ...

.. com uma prato de something-don (tudo o quer termina em don - - é um prato de qualquer coisa numa tigela com arroz por baixo: o kanji simboliza a tigela ou tigela de comida). Este something parece ser carne... já não sei, mas era bom :D

Teste de ouvido

Nove da manhã e já estava tudo preparado. Os senhores responsáveis pela parte técnica estavam apostos e no terreno - wow né? - a dar a assistência necessária; a professora repete os avisos que já tinha dado no passado e tenta-se ajeitar com a técnologia e; depois de alguma espera meio nervosa, começamos o teste. No computador, o grafico sonoro azul ia passando à medida que os exercicios no eram ditados pelos auscutadores e, aquando de uma resposta nossa, um mesmo gráfico, desta vez vermelho, era construido. Muitas perguntas, algumas armadilhas, alguns esquecimentos, algum stress e muita dor de cabeça lá para o fim. Estar permanentemente atento ao que se ouve não é uma habilidade que treinemos muito de onde venho e decifrar um "dono" ou um "doko" no meio de uma frase dita em japonês é mais difícil do que parece.

Depois do dito, cuja minha nota não foi nada de mais, continuamos a aula que, sem surpresa, nos liquidificou a massa cerebral numa sopa glauca, pela velocidade do que nos faziam ouvir e pela aceleração do que nos obrigavam a repetir e responder. Que nem uma tortura, no final, havia quem chorasse de desespero, de ansiedade, de tristeza, mas principalmente, pela impossibilidade de escapatória. Talvez, quem sabe, este semestre haja quem volte ao seu país mais cedo do que o previsto.

Thursday, 1 October 2009

Peixe cozido

Sendo o Japão uma ilha não é preciso pensar muito para chegar à conclusão que este pessoal deve comer muito peixe. Isso denota-se muito bem pelos pratos de sushi e sashimi e tenpura, mas também é indicado nos supermercados onde uma variedade bastante grande de peixe se vende. Resolvi experimentar dois, cozidos à maneira portuguesa, e ficaram os dois fantásticos. Nenhum deles é conhecido por ai. Um – o da foto, cujo nome, escrito em kanji, foi já foi para o lixo – era algo parecido com pescada mas mais gordo e muito mais aveludado. O outro, cuja foto não chegou a ser tirada, tem o nome de cauda amarela ou Japanese amberjack, foi pescado na província de Kumamoto, no Sul do Japão (é estranho mas eles metem em muito detalhe onde foi o peixe pescado, criado, nascido, etc.) e é das melhores coisas que já provei vindas do mar. Aparentemente também é usado em sushi, embora nunca tenha reparado em tal facto. Tem um sabor que está entre o bacalhau não salgado e o salmão, e se lhe adicionarem puré de batata e cenoura, couves, um ovito e muito azeite, tem uma refeição luso-nipónica fantástica!

Preparação para o teste

Depois de ontem ter apanhado a primeira molha ao ir para a escola, isto porque a chuva começou a cair exactamente quando estava a montar na bicicleta. Hoje fiz a preparação/treino para o teste de amanha. O teste é de ouvir o que basicamente quer dizer temos um computador à frente com uns auscultadores e um microfone e mediante o exercício temos repetir ou responder, em japonês, o que quer que eles perguntem.
Suponho que os exercícios sejam muito parecidos com os que, tão exaustivamente, damos nas aulas. Vamos ver ... o dia de amanha o dirá!


PS: A senhora ao fundo é a minha sensei principal, a Iwaki sensei. Nem sei o que diga dela, parece uma parede inviolável de politicamente correcto, ensino rápido e eficiente, mas nada mais ~ japoneses, I guess!

PPS: Foto tirada clandestinamente, como manda a tradição!

Wednesday, 30 September 2009

O-sushi

Jantar de hoje: sushi e onigiri. Pela módica quantia de 275円! Isto dos preço terem até cinquenta por cento de desconto quando se aproxima a hora de fechar o supermercado e, consequentemente, o prazo de validade dos produtos para consumir no dia é das melhores ideias de sempre. ~ ureshii ~

Primeiros Koyo

Hoje, quando estava a dirigir-me para a universidade para as aulas da manhã, apanhei uma molha. Mas o que verdadeiramente marcou o dia foi a minha percepção de que está a começar o tempo das koyo, ou seja, as folhas vermelhas, castanhas, laranja e amarelas que começam a povoar as maravilhosas árvores nipónicas, que marca o início do momiji. Esta será a primeira época que vou ver começar aqui no Japão, depois de ter vindo para cá no meio da época dos omatsuris. É estranhamente tranquilizador e quase paradoxalmente nostálgico comprovar que a mudança das folhas é mesmo patente, talvez por uma percepção que, por estar longe, está mais atenta a tais fenómenos, tão normais e idílicos e, ao mesmo tempo, mágicos, misteriosos e oníricos, à medida que o tempo voa para a morte no nosso passado.

O-bento

Hoje, à hora do almoço, conheci uma japonesa, de nome infelizmente já esquecido que, em vez de ir comprar a sua comida à cantina, como fazem todos os ocidentais, tinha um bento. Trazido de casa, preparado, penso eu, pela mãe, todo arrumadinho numa caixa de plástico especialmente pensada para esse propósito tão desconhecido e alienígena à nossa cultura, em que nem faltava a caixinha para por os hashi. Mais uma vez, os animes, mangas e outros perfumes culturais que daqui partem, se assumem como um retrato mais fiel do que alguns esperariam. Desta vez é caso para dizer kawaii desu ne ~

Tuesday, 29 September 2009

Japonesas típicas?

Pensei em colocar este post juntamente com o anterior, mas acho que assim fica melhor. Qual é a ideia estereotipada de uma personagem feminina num anime com uma temática escolar? Tirando as tsundare e as ocasionais personagens principais o que temos são raparigas, representadas pela, por exemplo, Ryou, a Yuki-chan e a Mikuru-chan, que: tem medo de insectos e, se algum lhes chegar perto é provável que gritem e se afastem o mais possível numa reacção que parece quase encenada; encolhem-se todas na face do "perigo", por exemplo uma bola perdida a vir na sua direcção, mas não lhe saem do caminho; não tem força física nenhuma; quando falam dizem ne e, ao mesmo tempo, inclinam a cabeça para o lado; etc. Se a esta admitidamente estereotipada descrição acrescentarmos o ser tão magra que parecem estar a tocar não-tão-ao-de-leve na anorexia, e o ficar nas fotos em pose kawaii com uma ou ambas a mãos a fazer o V de victoria, temos uma descrição muitíssimo fiel de grande parte das raparigas do evento.
Cada vez mais, se forma na minha cabeça a ideia de que o Japão é um gigantesco anime-real, em que todas as pessoas têm um papel mais ou menos definido. Resta saber qual é que é o meu :D

Jogos de crianças

Eu, quando me meto em algo gosto de saber os porquês, os ondes, os quandos, os comos e os quems. E, se não os sei tenho uma boa razão para isso, sendo ela, muitas vezes, o reconhecimento de um padrão passado ou algo inerentemente interior. Isto quer dizer que, quando um japonês nos empurra para um pavilhão onde estão um monte de japoneses, chineses e coreanos, de ambos os sexos e com idades entre os vinte e os vinte e seis anos, eu vou querer saber algumas coisas. Infelizmente a barreira comunicacional, mesmo para as minhas acompanhantes era muito grande: mesmo que se saiba japonês, há conceitos que um nativo assume que, muitas vezes, não entra na cabeça de alguém que está aqui à menos de um mês. E, mesmo com as minhas incessantes perguntas, mesmo com algumas traduções, mesmo com as nossas só-que-ver-o-que-é-isto-e-mesmo-assim-nem-disso-tenho-a-certeza, mesmo sabendo que estávamos num pavilhão com umas cinquenta pessoas descalças e que tal podia vir a escalar para algo desagradável, não se conseguiu saber mais nada alem da palavra エベントウ, ou seja “evento”, o que convenhamos, não ajuda assim tanto.

Passado algum tempo em que, em vão, tentamos descortinar o mistério e, não tão em vão, travamos alguns conhecimentos com os presentes – não é surpreendente mas eles parecem tão interessados em nós, como nós por eles, para o bem e para o mal – e uma “apresentação”, à falta de melhor palavra, começou. O basicamente estávamos a assistir eram quatro raparigas e dois rapazes a fazer uma espécie de dança sincronizada, ao som de uma música adequada à tala actividade, que passava por vários tipos de coreografias – referencias a james bond, à kawaii culture e a comboios presentes – ligadas entre si por uma coreografia-refrão. Até ai tudo bem: meninas com tótós a saltar assustam um bocado mas nada que não se aguente. Depois, perante as nossas caras espantadas e mentes brancas, colocando em uso duas bolas cor-de-rosa super leves de dois metros de diâmetro, começaram a explicar um jogo à plateia que, também não o entendeu muito bem, mas com o qual parecia ter mais à vontade do que nós.
O jogo, como depois vim a comprovar era o seguinte. Primeiro faziam-se equipas e, dentro dessas equipas grupos de seis pessoas para jogar. Cada jogo era disputado com três destes grupos ao mesmo tempo e a ideia era fazer, com cinco das seis pessoas um suporte para a gigantesca bola enquanto a sexta gritava セート!(Set!) … OMNIKIN! (que não é mais do que o que estava escrito bolas gigantes) e, depois, gritava-se o nome da equipa que tinha de apanhar a bola e repetir o processo. Caso a bola caísse no chão a equipa perdia um ponto, embora eu não tenha entendido a classificação. Eu, obviamente disse que ficava só a ver e depois de um jogo de jan-ken-pon em que não entendi de perdi ou ganhei, também obviamente, pois os japoneses, aparentemente, têm uma capacidade fantástica de persuasão não-assertiva que ainda vou ter de apreender, fiz parte da primeira equipa de seis no primeiro jogo que se fez. Não vou negar que foi engraçado e, embora tenha tido o odor dos tempos de educação física, foi uma experiência "interessante". ^_^

No entanto, ainda nada sabíamos quem organizou o evento ou porque o organizou, sendo esta última pergunta respondida aquando do segundo jogo em que fiquei no banco (chão, na verdade). E a resposta, e eu cito, é muitíssimo simples: “fazer amigos”. Sim, é verdade: os japoneses, depois de um dia de aulas estafante, pois o “evento” começou por volta das quatro da tarde, vão para um ginásio jogar jogos que lembram a infância que todos já perdemos para “fazer amigos” e conhecer pessoas. Isto deixou-me extraordinariamente apreensivo e dentro dos meus pensamentos e correlações. Eu já tinha ouvido falar na infantilidade da mente e sociedade japonesa, mas isto é um bocadinho mais do que eu estava à espera! No entanto, os resultados são fantásticos e depois do jogo terminar o clima era leve e os conhecimentos eram muitos, mesmo não entendendo quase nada de japonês. Talvez a nossa sociedade obcecada com a responsabilidade e peso da vida adulta possa apreender algo com isto, ou talvez, dentro de cinquenta anos já não haja japoneses que consigam pensar além da idade mental de quinze anos. Seja como for, foi fantástico a descoberta de tal prática e um privilégio experimentar em primeira mão algo de tão íntimo, secreto e, de uma certa maneira, até mágico. Depois de desenvolver esta e aquela conversa e ver esta e aquela situação mais ou menos caricata, fez-se outra coisa, para mim mais do que cru, áspero, chocante, bárbaro e desumano: uma dança de roda em que se simulou a dança apresentada no início. No comments on this are to be made.

Depois, foi toda a gente jantar yakisoba, feita pelos organizadores que, finalmente se conhecem: associação de estudantes, não do departamento, mas de toda a universidade. Comparações com a AAC são ridículas: estes daqui com toda a mentalidade infantil, estão num nível organizacional e proactivo muito mais à frente. Alias, para comprovar esta dicotomia, que ainda não entendo, entre a mente criança-adulta ou adulto-criança, basta ver a conversa que tive com a cozinheira-mor, alguém que cozinha para mais de cinquenta pessoas numa sala com espaço muito limitado e que, depois de falar uns cinco minutos comigo, me pergunta, como se na terceira classe estivessemos, “Vamos ser amigos?”. Zenzen wakaranai… ~
O dia termina comigo a ir buscar as fotos do evento ao computador da associação e a falar com uma rapariga do curso de português que faz parte da organização. O meu japonês era pouco pior que o português dela e, por isso, a conversa não foi muito longe; no entanto, a informação de que tal evento e a respectiva propaganda, se faz todos os dias foi-me transmitida: é mesmo caso para dizer zenzen wakaranai! (não entendo nada!)


Aula chocante

O meu horário é bastante pobre, tendo aulas todas as manhãs e apenas duas aulas à tarde durante a toda a semana e, estando eu apenas aqui um anito, resolvi ir ver como eram as aulas da tarde. A este ponto, uma explicação é necessária. As aulas da manha fazem parte de um curso especial, intensivo e, particularmente para a mente japonesa, bastante hardcore, dado a todos os alunos que estão na Universidade de Tenri durante o espaço curto de um ano. As aulas da tarde são aulas, pelo contrario, são mais especificas – leitura, escrita, kanji, gramática, etc. – sendo dadas aos alunos do curso de quatro anos e que nós, estudantes estrangeiros, podemos, se tivermos conhecimento, paciência e coragem, assistir. O problema aqui é que o sistema escolar japonês começa os anos no semestre de primavera que começa em Abril, ou seja, o segundo semestre deles é o nosso primeiro. E isto quer dizer que, infelizmente, as aulas da tarde mais básicas a que posso assistir são do segundo semestre de um curso de quatro anos. E, neste momento, as mentes assertivas dos meus leitores já começam a ver o problema: são aulas que assumem que temos um semestre intensivo de japonês na universidade de Tenri, coisa que eu, obviamente não tenho, embora - mea culpa - um semestre intensivo aqui é mais ou menos, mais mais do que menos na verdade, equivalente aos dois anos que estive a estudar japonês. De qualquer maneira, fui tentar a aula, ideia que me foi guiada até à mente consciente por uma alemã que conheci.

Claro que as coisas tem de ter alguns percalços e, mente ingénua a minha, essa alemã não ia para uma aula do segundo semestre do curso de quatro anos, mas sim, para uma aula do quarto semestre. Isto faz sentido para ela, uma aluna no quarto ano (?) de um curso de língua japonesa na Alemanha mas dificilmente fará sentido para mim. Não obstante, depois de descobrir tais factos, resolvi ficar por lá, lembrando-me da máxima do protagonista de um anime por muitos já esquecido: benkyou! benkyou! benkyou! benkyou! benkyou! benkyou! benkyou!
Da aula em si não entendi nada, sendo-me explicado depois, que era uma aula de conversação (?) e o tema desta era “o que torna o teu pais especial”, ou seja, pano (e papel, se me é permitida o anedótico comentário) para mangas. Mas a atmosfera desta chocou-me. A aula, sendo de japonês, só tinha alunos estrangeiros, muitos deles, como será meio óbvio após uma rápida analise geográfica, chineses, coreanos e tailandeses. E eu não quero estar a dar uma ideia errada de tais simpáticas, pelos exemplos que tenho tido, pessoas, mas aquela aula foi a coisa mais desrespeitosa que vi desde… bem, desde sempre. Mais do que ser um defeito da professora, uma senhora japonesa com os seus quarenta anos, muito magra e pequenina, e com uma paciência de santo, o pessoas asiático que lá estava comportar-se-ia melhor num café: falavam por cima da professora mesmo quando ela estava ao pé das mesas deles, ignoravam-na como se ela não estivesse lá em contraponto com as tentativas de chamadas de atenção dela, viravam-se para trás a toda a ocasião e falavam mais do que eu alguma vez os vi falar fora dessa aula. Um deles, caso raro e famoso por cá, até estava a dormir e, quando a professora o acordou batendo ao de leve na sua carteira, ele apenas levantou a cabeça, que se encontrava metida nos seus braços, olhou para ela e, numa atitude que todos os professores que conheço achariam provocatória, voltou a por a cabeça na posição em que estava antes. Completamente do outro mundo! Eu nem quero imaginar como é que serão as universidades chinesas e, em contraponto, deixo-vos a pensar como é que foi a atitude da alemã, habituada, no seu país, à ordem, respeito e rigidez que caracteriza, como ela mesmo o disse na dita aula, o motor da Europa. É que se eu estava chocado mas meio confortável e até divertido com a situação, ela estava chocada e prestes a levantar-se e a manda-los, verbalmente, para a outra parte chinesa (^^,)